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TOLERÂNCIA ZERO: quinto capítulo

"Falta de rumo"

De novo no café. Fazia frio, muito. Ele chegou com seu capote negro, elegante, mas com uma cara péssima. Queria me dizer que estava de mau humor. Pediu um chá vermelho, muito forte, como o que eu tomava, e já começou:

_ De férias, então? Cada lugar mais raro que você me faz vir.

_ Não estou de férias. Estou trabalhando, tenho que escrever.

_ Escrever aquelas coisas de sempre? Deus me livre!

_ Você tem lido o que publico na Carta Forense?

_ Pouco. Só quando me sobra tempo. Antes que me perguntes, evoluíste muito pouco ou quase nada: estilo pretensioso, falsa inovação, pessimismo crônico que não leva a lugar algum.

_ Obrigado, me animas muito - tive de ironizar.

_ Uma das minhas funções é, como se diz nesta terra, saber de que madeira você está feito. Se não resiste a uma crítica, melhor desistir. Aliás, já falamos acerca de desistir e não vou voltar nesse assunto. Não posso decidir por você.

_ É que agora me comprometi: tenho de fazer dez capítulos sobre a tolerância zero e disse que meu leitor poderia acompanhar o processo produtivo. A princípio me pareceu fácil, porque eu tinha uma idéia bem formada sobre o tema, mas agora acredito que empaquei numa encruzilhada.

_ Você vive empacado em encruzilhadas, e seu leitor já devia saber disso. Se te conforta de alguma coisa, é o que tenho a dizer. Posso acender um cigarro?

_ Acho que não.

_ E mascar este palito de dentes? - deve ter reparado em meus olhos arregalados, vendo-o sacar o pedacinho de pinheiro do paliteiro - Há alguma lei que proíba mascar palitos de dentes?

_ Não, mas acho que não será fino em um café como este, tive de responder, sem notar que caía na armadilha.

_ Ah, está aí a intolerância. De que vamos agora? - e pôs o palito entre os dentes.

_ Entenda, tracei um caminho jurídico para comentar a chamada tolerância zero. A princípio, me parecia muito claro que nossa sociedade precisava resistir a alguns vícios, a mentira, a violência desmedida, a corrupção principalmente. Política e essas coisas. Eu teria a solução para tudo. Então um ensaio que cuidasse tema por tema relacionado ao assunto chegaria ao final a uma conclusão coerente: algo como que a lei pudesse, mesmo que pouco a pouco, impor alguns costumes e regras. Costumes que, a longo prazo, transformariam a sociedade como um todo, que se convenceria de ter direitos e de poder ajustá-los a uma cultura mais rígida. Como aconteceu com nosso Código do Consumidor.

_ Se você falar outra vez em Código, vou me levantar.

_ (Eu que falo em código?) Ah, em Código. Pois eu dizia, quando comecei a escrever tinha as críticas muito claras, mas depois elas foram se esvaindo, a tal da volatilidade. E tudo me pareceu igualmente sem sentido, minha própria determinação pela rigidez, a esperança de melhoria, e me perguntei se as tatuagens do Ozzy não têm mais coerência que as Leis ordinárias, ou se eu tenho alguma obrigação (direito, mas não ouso pronunciar isso) de me meter a falar de uma sociedade em que as coisas seguem tão bem como estão, com o Jornal Nacional dando conta das notícias de o que está longe, seguido de um roteiro perfeito na novela das oito, a alegria daquela moça de cadeira de rodas que depois sai da clínica e...

_Nossa, quanto tempo livre! Gostaria de ser você - e creio que parou de falar apenas porque o palito ameaçou cair-lhe da boca. Eu aproveitei para continuar:

_ Preciso te confessar: nunca deveria ter aceito discutir o tema da tolerância zero assim de modo tão global. Talvez tenha coincidido apenas com uma fase de minha vida, mas está acontecendo algo muito estranho... Se você me permite pronunciar... o  que quero dizer é que não encontro sentido em quase nada, e a partir daí a falta de tolerância perde sentido, porque dá igual uma coisa que outra. Uma sentença do juiz, assim ou assado, não muda o mundo, uma lei de um jeito ou de outro não altera nossa natureza, então o que não posso tolerar? O último pensamento com algum sentido que escrevi foi o de que a intolerância cria sua própria reação, que virá a anulá-la, mais cedo ou mais tarde, como ocorre com qualquer regime totalitário. Bom, isso é evidente, mas depois vem a questão, então por que todo esse raciocínio se o processo ao final sempre alcança o mesmo equilíbrio? Apenas por vaidade se desequilibra um sistema, que daria certo protagonismo a uns, mas depois retomaria os mesmos enfadonhos trilhos. E então por que refletir sobre o tema, para não acrescentar nada? Veja, ainda não falei o que precisava. Posso te confessar? Lá vai [e tomei um bom gole de chá, que preferia que fosse algum alucinógeno, mas não era]: Tudo isso que te disse assim em resumo... Tudo fica martelando no meu cérebro a cada vez que começo com o tema e, te digo, agora temo por minha saúde mental. Meus questionamentos não parecem equilibrados e tudo se mistura a todo o tempo e não sei... A cada vez que vejo os jornais parece que só encontro notícias de pessoas que demonstram como a saúde mental humana é frágil, que as alucinações estão aí para quem as quiser, compreende? E o medo, porque há conseqüências...

- Se tu tivesses um equilíbrio mental perfeito - e agora o palito estava entre seus dedos - não dialogarias comigo.

Fingi que não ouvi. Apenas continuei:

_ Preciso te dizer uma coisa, que tem a ver com tudo isso: eu cheguei a uma conclusão sobre o tema da tolerância zero. Uma conclusão absoluta, depois de muito rascunho.

_ E qual é? - mascou o palito outra vez.

_ Esse é o problema. Não tenho coragem de dizer. Porque sairá publicada, e temo ser completamente desconexa da realidade. Sabe, essas coisas ficam escritas.

_ Não tens coragem? Tem alguém te intimidando?

Fiz a pausa que tinha que fazer, mas não continha a falar, caso contrário sua visita seria em vão, mau para mim e para ele. Encarei:

_ Você.

Ele ficou ofendido, levantou-se de pronto, mas eu me sentia aliviado. Havia falado. Com o palito entre os dedos, proferiu:

_ Então acaba com tudo. Põe aí uma conclusão melancólica de auto-ajuda: "Os intolerantes na verdade não toleram a si próprios, incomoda-os ver sua própria condição de pequenez, da qual ninguém está livre. Então encontram algo errado que perseguir, para não ver que o erro é da sua própria condição". E pronto. Os leitores mais tontos vão adorar, algo como "busquei a felicidade no mundo todo e depois descobri que estava dentro de mim". Que te parece? Preciso te dizer que esse é o final da novela a que assistes com interesse?

_ Sei - respondi, envergonhado.

_ E quanto a você, como pessoa... Continue com sua covardia, negando os delírios e... E assistindo à novela. Depois me conta se aquela bonitinha aprendeu de novo a andar, ok?

Olhava-me nos olhos, mas depois baixou-os em direção à mesa. Com dois dedos da mão esquerda, rompeu o palito que mascava, separou as duas metades e as deitou uma de cada lado do pires da minha xícara de chá. Duro, mas de grande ajuda.


Jornal Carta Forense, terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
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Víctor Gabriel Rodríguez
Professor Doutor de Direito Penal da Universidade de São Paulo - FDRP; Membro da União Brasileira de Escritores, autor de Argumentação Jurídica: Técnicas de Persuasão e Lógica Informal, com 4ª Edição pela Editora Martins Fontes, eda novela A Hora do Carvoeiro. Email: victorgabrielr@hotmail.com
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