" Desfecho "
É
um gerador de energia. Foi o que me disse o porteiro pela primeira vez, quando
inauguraram um arranha-céu espelhado, mas meio torto, ali no bairro. Desses prédios
comerciais, todo envidraçado, os escritórios. E, em suas vértebras, um gerador
de energia (que suspeito ser na verdade um ar condicionado) passa o dia todo
fazendo um barulho infernal. Um ruído agudo, desses que parece que fica pinçando
no cérebro, e que nos persegue a cada canto, não há fuga, no way out, como chamava aquele filme, um
som metálico de quem te põe no ouvido um motorzinho de dentista, só que o motor
vai entrando pelo canal auricular e se instala bem na base dos neurônios, não
sei, onde estiver mais sensível. Pois bem, nestes dias voltei à casa da minha mãe,
que fica bem em frente a esse prédio espelhado, e o barulho recomeçou: alto,
estridente, irritante. O edifício estava ali, justo ao outro lado da rua,
berrando no meu ouvido, cutucando em carne viva as terminações nervosas. Me
aproximei da janela, raiva pura, Será que ninguém protesta? O ser humano se
acostuma a tudo, claro, e era bom que fosse assim: em poucos minutos teria de
estar no aeroporto, e o som das turbinas do avião não diferiam muito daquilo
que eu ali escutava.
Em
um momento (não sei quanto tempo) me surpreendi compondo mentalmente uma cena
consoladora: na minha mala de viagem eu trazia uma metralhadora - daquelas que
imaginava carregar quando era criança, nos momentos de fúria - que disparava
quase infinitos tiros. Fácil de montar, apesar do tripé, eu o fazia
rapidamente. E ação: mirava o edifício, atirava, uma bala para cada lâmina de
vidro do prédio barulhento, com seu ruído agudo abafado pelo som da pólvora
explodindo e das centenas de cristais trincando, os cartuchos bronzeados sendo
cuspidos pela culatra com velocidade. Não se iludam, era uma cena linda: muita
fumaça perto de mim e, ali do outro lado, como se o arranha-céu se despisse um
pouco a cada disparo, os vidros caindo aos cacos, que de longe pareciam escamas
ou purpurina (affe!) que iam ao chão, escalpelado, agora eram apenas seus
ossos.
Situação-limite,
por causa do barulho. Se alguém me acha intolerante, é porque não escutou o tal
som estridente do suposto gerador. Nem me importa saber se estilhaçar todos os
vidros do prédio seria causa de desligarem a máquina de ruído (imagino que
sim), mas mesmo que o som metálico continuasse, a mera destruição do seu
entorno, do seu casulo, já me era um alívio. Algo assim, como uma vingança (é,
eu disse vingança
mesmo, essa palavra proibida entre os juristas, somente porque faz parte da
raiz do sistema da lei. Raiva do barulho, perdoem).
Não
estou nada a fim de suportar aquele ruído irritante "porque sim", e então ainda
planejo em detalhes o atentado. Porém somente cogito, porque - para dizer algo bem ao
gosto de alguns colegas - faltam-me elementos objetivos e subjetivos: não tenho a metralhadora, e daí
acredito que
me falta a coragem de apertar o gatilho, se a tivesse. Não sei. E, enquanto a
mera cogitação não é crime, aproveito para que me sirva de parâmetro para a
reflexão final, que talvez interesse: o que sou obrigado a suportar? Minha meia
dúzia de leitores fiéis entenderá por que formulo a questão. Há meses estou
dando voltas em busca da resposta que pensei que seria ponto-chave para
qualquer operador do direito, quais são as fronteiras reais da desordem. E não
me parece sem propósito: se for obrigado a suportar tudo, não devem existir leis, porque
serão inúteis; se não tiver de suportar nada, um computador pode aplicar as
normas-padrão. Então, claro, existem limites que não se devem ultrapassar.
Isso é evidente para o aluno de Direito, já na primeira aula de IED. Mas desde minha primeira aula de IED se passaram
alguns aninhos, e ninguém me explicou quais são - ou onde estão previstos - esses
limites, que
deveriam definir o suportável. Leis e moral não coincidem, ímpetos psicológicos,
comunicação (que se dizem autopoiéticas) e regras ainda menos. Tudo é uma feliz
incógnita, arquitetada para deixar o prédio fazer barulho impunemente e, talvez,
para me punir se eu puser em prática meu plano de reação privada.
Em
outras palavras, estou muito desanimado para continuar escrevendo sobre tolerância
zero, porque minha única conclusão é que qualquer tema de humanidades, quando alguém
nele se aprofunda, faz-se uma causa de depressão: a atividade do cientista
humano só lhe faz revelar que sua natureza varia muito pouco, que seus defeitos
são sempre os mesmos e que - talvez ao contrário de o que ocorra com ciências
exatas ou biomédicas - as reflexões científicas humanas servem pouco mais do
que para contemplação, um voyeurismo de quem se sabe impotente. Ao menos a curto e médio prazo,
não encontramos respostas, como eu não as encontrei para as fronteiras da tolerância:
escrevi, refleti, dei o melhor de mim (que não é muito) e não saí de um medíocre
atividade de observação, que me prejudicou o fígado e o cérebro, porque a única
coisa que eu consegui comprovar é que, caso eu arranje um bom alucinógeno que
me transporte desta realidade incorrigível, então sim posso cair nas garras de
uma lei intolerante, para quem não basta que eu me dê conta da minha pequenez: é necessário que eu dela me conscientize,
dela não fuja, e, mais, sofra-a intensamente.
Volto
com seriedade aos planos de destruir o prédio, e isso não é uma metáfora (que,
cá entre nós, seria muito infantil), de fazer ruir o edifício tal como se destrói
o meu projeto de finalizar um grande ensaio com uma conclusão bonita,
contributiva, algo quase doutrinário para o direito. Não busquem outro sentido:
eu quero mesmo é quebrar vidros. Falta-me apenas coragem.
[Pois
aqui, ao menos de momento, termino meu Ensaio sobre a Tolerância Zero. Previsto para dez capítulos,
mas cortado no sétimo, talvez para comprovar aquela teoria de que quem pretende
escrever sobre aquilo que lhe é previsível pode fazer algo correto mas muito
chato. As surpresas são parte do processo. Falando nisso, não posso deixar de mencionar que quem ler
seguidamente os sete capítulos encontrará neles alguma coerência: como tudo foi feito - em que
valem mais os intervalos do que as palavras em si. E nada mais. Agora vem
apenas um desfecho, porque não ousei (covardia, covardia) interromper o texto
de repente como seria devido, porque parecerá um aborto da própria criação, e
somos muito conservadores até para aceitar um aborto textual. As idéias, mesmo
as mais medíocres, precisam da forma convencional.]
Minha
mulher me surpreendeu com a mirada fixa ainda no edifício, distraído, No que
está pensando?, Nada, eu disse que terminava de arrumar a mala, sabia que o avião
me esperava e os vôos pra Brasília são sempre cheios, não se pode bobear. Passei
rápido o zíper e atei o couro e a fivela, ainda sentindo o resquício do sonho,
o cheiro de pólvora e a arma desmontada, cano fervendo, quente, que eu escondia
ali dentro, na valise gorda, nada de vestígios. E de volta à realidade, sem
grandes reflexões, Nossa, meu amor, o que você carrega nessa mala, que parece
que vai pra guerra?
Os
livros. Os livros pesam muito.