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Tolerância Zero: sétimo capítulo

" Desfecho "

 

É um gerador de energia. Foi o que me disse o porteiro pela primeira vez, quando inauguraram um arranha-céu espelhado, mas meio torto, ali no bairro. Desses prédios comerciais, todo envidraçado, os escritórios. E, em suas vértebras, um gerador de energia (que suspeito ser na verdade um ar condicionado) passa o dia todo fazendo um barulho infernal. Um ruído agudo, desses que parece que fica pinçando no cérebro, e que nos persegue a cada canto, não há fuga, no way out, como chamava aquele filme, um som metálico de quem te põe no ouvido um motorzinho de dentista, só que o motor vai entrando pelo canal auricular e se instala bem na base dos neurônios, não sei, onde estiver mais sensível. Pois bem, nestes dias voltei à casa da minha mãe, que fica bem em frente a esse prédio espelhado, e o barulho recomeçou: alto, estridente, irritante. O edifício estava ali, justo ao outro lado da rua, berrando no meu ouvido, cutucando em carne viva as terminações nervosas. Me aproximei da janela, raiva pura, Será que ninguém protesta? O ser humano se acostuma a tudo, claro, e era bom que fosse assim: em poucos minutos teria de estar no aeroporto, e o som das turbinas do avião não diferiam muito daquilo que eu ali escutava.

 

Em um momento (não sei quanto tempo) me surpreendi compondo mentalmente uma cena consoladora: na minha mala de viagem eu trazia uma metralhadora - daquelas que imaginava carregar quando era criança, nos momentos de fúria - que disparava quase infinitos tiros. Fácil de montar, apesar do tripé, eu o fazia rapidamente. E ação: mirava o edifício, atirava, uma bala para cada lâmina de vidro do prédio barulhento, com seu ruído agudo abafado pelo som da pólvora explodindo e das centenas de cristais trincando, os cartuchos bronzeados sendo cuspidos pela culatra com velocidade. Não se iludam, era uma cena linda: muita fumaça perto de mim e, ali do outro lado, como se o arranha-céu se despisse um pouco a cada disparo, os vidros caindo aos cacos, que de longe pareciam escamas ou purpurina (affe!) que iam ao chão, escalpelado, agora eram apenas seus ossos.

 

Situação-limite, por causa do barulho. Se alguém me acha intolerante, é porque não escutou o tal som estridente do suposto gerador. Nem me importa saber se estilhaçar todos os vidros do prédio seria causa de desligarem a máquina de ruído (imagino que sim), mas mesmo que o som metálico continuasse, a mera destruição do seu entorno, do seu casulo, já me era um alívio. Algo assim, como uma vingança (é, eu disse vingança mesmo, essa palavra proibida entre os juristas, somente porque faz parte da raiz do sistema da lei. Raiva do barulho, perdoem).

 

Não estou nada a fim de suportar aquele ruído irritante "porque sim", e então ainda planejo em detalhes o atentado. Porém somente cogito, porque - para dizer algo bem ao gosto de alguns colegas - faltam-me elementos objetivos e subjetivos: não tenho a metralhadora, e daí acredito que me falta a coragem de apertar o gatilho, se a tivesse. Não sei. E, enquanto a mera cogitação não é crime, aproveito para que me sirva de parâmetro para a reflexão final, que talvez interesse: o que sou obrigado a suportar? Minha meia dúzia de leitores fiéis entenderá por que formulo a questão. Há meses estou dando voltas em busca da resposta que pensei que seria ponto-chave para qualquer operador do direito, quais são as fronteiras reais da desordem. E não me parece sem propósito: se for obrigado a suportar tudo, não devem existir leis, porque serão inúteis; se não tiver de suportar nada, um computador pode aplicar as normas-padrão. Então, claro, existem limites que não se devem ultrapassar. Isso é evidente para o aluno de Direito, já na primeira aula de IED.  Mas desde minha primeira aula de IED se passaram alguns aninhos, e ninguém me explicou quais são - ou onde estão previstos - esses limites, que deveriam definir o suportável. Leis e moral não coincidem, ímpetos psicológicos, comunicação (que se dizem autopoiéticas) e regras ainda menos. Tudo é uma feliz incógnita, arquitetada para deixar o prédio fazer barulho impunemente e, talvez, para me punir se eu puser em prática meu plano de reação privada.

 

Em outras palavras, estou muito desanimado para continuar escrevendo sobre tolerância zero, porque minha única conclusão é que qualquer tema de humanidades, quando alguém nele se aprofunda, faz-se uma causa de depressão: a atividade do cientista humano só lhe faz revelar que sua natureza varia muito pouco, que seus defeitos são sempre os mesmos e que - talvez ao contrário de o que ocorra com ciências exatas ou biomédicas - as reflexões científicas humanas servem pouco mais do que para contemplação, um voyeurismo de quem se sabe impotente. Ao menos a curto e médio prazo, não encontramos respostas, como eu não as encontrei para as fronteiras da tolerância: escrevi, refleti, dei o melhor de mim (que não é muito) e não saí de um medíocre atividade de observação, que me prejudicou o fígado e o cérebro, porque a única coisa que eu consegui comprovar é que, caso eu arranje um bom alucinógeno que me transporte desta realidade incorrigível, então sim posso cair nas garras de uma lei intolerante, para quem não basta que eu me dê conta da minha pequenez:  é necessário que eu dela me conscientize, dela não fuja, e, mais, sofra-a intensamente.

 

Volto com seriedade aos planos de destruir o prédio, e isso não é uma metáfora (que, cá entre nós, seria muito infantil), de fazer ruir o edifício tal como se destrói o meu projeto de finalizar um grande ensaio com uma conclusão bonita, contributiva, algo quase doutrinário para o direito. Não busquem outro sentido: eu quero mesmo é quebrar vidros. Falta-me apenas coragem.

 

[Pois aqui, ao menos de momento, termino meu Ensaio sobre a Tolerância Zero. Previsto para dez capítulos, mas cortado no sétimo, talvez para comprovar aquela teoria de que quem pretende escrever sobre aquilo que lhe é previsível pode fazer algo correto mas muito chato. As surpresas são parte do processo. Falando nisso,  não posso deixar de mencionar que quem ler seguidamente os sete capítulos encontrará neles alguma coerência: como tudo foi feito - em que valem mais os intervalos do que as palavras em si. E nada mais. Agora vem apenas um desfecho, porque não ousei (covardia, covardia) interromper o texto de repente como seria devido, porque parecerá um aborto da própria criação, e somos muito conservadores até para aceitar um aborto textual. As idéias, mesmo as mais medíocres, precisam da forma convencional.]

 

Minha mulher me surpreendeu com a mirada fixa ainda no edifício, distraído, No que está pensando?, Nada, eu disse que terminava de arrumar a mala, sabia que o avião me esperava e os vôos pra Brasília são sempre cheios, não se pode bobear. Passei rápido o zíper e atei o couro e a fivela, ainda sentindo o resquício do sonho, o cheiro de pólvora e a arma desmontada, cano fervendo, quente, que eu escondia ali dentro, na valise gorda, nada de vestígios. E de volta à realidade, sem grandes reflexões, Nossa, meu amor, o que você carrega nessa mala, que parece que vai pra guerra?

Os livros. Os livros pesam muito.


Jornal Carta Forense, terça-feira, 2 de março de 2010
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Víctor Gabriel Rodríguez
Professor Doutor de Direito Penal da Universidade de São Paulo - FDRP; Membro da União Brasileira de Escritores, autor de Argumentação Jurídica: Técnicas de Persuasão e Lógica Informal, com 4ª Edição pela Editora Martins Fontes, eda novela A Hora do Carvoeiro. Email: victorgabrielr@hotmail.com
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