O que são esses "pecados", por
que "capitais", qual é sua hierarquia, o nome de seus
demônios e o mais relevante:
como vencê-los?
Combater o mal - nossos erros, nossos vícios,
a hýbris (desmedida) grega - é tarefa que não tem fim. É decisão moral que exige
a constância digna de um Sísifo, que no mito, dia após dia, por toda
eternidade, arduamente empurra uma grande pedra morro acima e, assim que atinge
o cume, a maldita volta a rolar abaixo.
E se o tinhoso não se revela devidamente
paramentado (nem mesmo na alta Idade Média confirmou-se a presença material,
física, concreta, enfim, real do demônio), tal qual nos legou a fantástica
imaginação de Dante Alighieri (1265-1321) em sua obra "A Divina
Comédia", lidamos com um símbolo do mal que, embora não possa ser
apreendido em conceitos puros, deixa funestos rastros a perpassar toda
realidade que nos circunda.
Uma vez que o mal não se apresenta à luz
senão como ameaçadora sombra a obscurecer a psyche (alma) humana,
arrebatando-nos às profundezas do desespero, perscrutemos suas maiores pegadas
a fim de compreender seu modus operandi e refletir sobre qual o
reto convívio. Quando tentados, precisamos lidar com o que tenta limitar nossa
liberdade, se apossando de nossa vontade.
O filósofo medieval Tomás de Aquino (Aquino é
o nome do castelo onde nasceu, no reino de Nápoles) viveu entre 1224/5 a 1274
d.C. Observador atento e sagaz, retomou os estudos de alguns mestres (Atanásio,
Antão, Cassiano e Gregório Magno - que em 590 d.C. reexamina a lista de 375
a.C., legada pelo célebre monge Evágrio Pôntico), antigos sábios que antes dele
também se aventuraram a fazer - como nos diz o especialista Jean Lauand - uma "tomografia
da alma humana" a fim de descrever a ação fenomenológica dos
"maus daimons" em nós.
Esses antigos estudos sobre os maus demônios
(demonologia) não se limitaram a aspectos dogmático-religiosos; são construções
éticas que tiveram impacto na história, na sociedade e na psicologia. Acalentam
um propósito bem claro: "para conhecer o mal é necessário voltar-se
para os modos concretos em que ele ocorre", afirmou o empirista
Tomás, citando o sábio (pseudo-) Dionísio.
Assim, voltando-se para a realidade mundana,
para o dia a dia das pessoas, ele compilou os principais maus hábitos que
exercem uma influência espiritual invisível e, se desatentamente permitidos e
inadvertidamente cultivados, culminarão naqueles que até hoje conhecemos como
sendo os principais erros, os vícios de caput: Os Sete Pecados
Capitais.
O vício, alerta Lauand "compromete
muitos aspectos da conduta; é uma restrição à autêntica liberdade e um
condicionamento para agir mal". De outro modo, o psicanalista
C. G. Jung diz: "Na raiz de um complexo encontra-se um conteúdo com
ênfase no sentimento, e cuja menção desperta em nós emoções violentas, mas que
nós reprimimos da nossa consciência. Um complexo leva-nos a 'um estado de falta
de liberdade, a pensarmos e a agirmos compulsivamente'". É quando
essas inconscientes partes da psyche sob tensão alcançam o
domínio do eu (ego), que, não somente temos o demônio, mas mais ainda: é o
demônio quem nos tem.
O que são esses "pecados", por que
"capitais", qual é sua hierarquia, o nome de seus demônios e o mais
relevante: qual é o antídoto (virtude) para vencê-los?
A esses sete grandes modos de desassossego, o
medievo denominou "vícios" ou "pecados"; o grego antigo
apontaria como sendo "erro" (hýbris, a desmedida), hoje
compreendemos tratar-se de condutas que comprometem o bem-estar físico e
psíquico, tanto nosso quanto daqueles que nos cercam.
De acordo com a tríplice divisão da alma em
Platão (vide artigo já publicado em meu blog), os estudiosos
estratificaram as principais paixões às quais o ser humano sucumbe:
o epitimético diz respeito aos instintos mais primitivos, as
necessidades mais básicas, daí suas fraquezas serem a gula, a luxúria e a avareza (ganância);
a parte ligada ao thymós, ao coração é
emocional, desencadeia estados negativos de ânimo e são ainda mais difíceis de
serem superados: a preguiça (acídia) e a ira e,
o nôus refere-se ao espírito e corresponde aos vícios da inveja e da vaidade (soberba).
Demoníacos vícios que lideram - máximo-capitais
- porque encabeçam e desencadeiam muitos outros formando um verdadeiro exército
atrás de si (geram cerca de cinqüenta filhas). Entre esses sete
"poderosos chefões" também identificaram um capo de tutti i capi e,
curiosamente um agente duplo infiltrado: a Ira!
IRA
A Ira é vício mortal. Cega o
homem (o furioso não pode ver a luz), é o mais violento e, apesar de ser o que
mais permite entrever uma imagem de sua essência (Amon é o demônio deixa o
irado desfigurado), paradoxalmente, também se apresenta pela virtude. Segundo o
Antigo Testamento, o próprio Deus, erguendo-se pela Justiça, irou-se, ao menos,
três vezes, vide Adão e Eva, o Dilúvio e Sodoma e Gomorra. A Ira comete também
àqueles que indomitamente se recusam à tibieza e zelam pela Justiça: "É
necessário o máximo cuidado para que a ira, que deve ser instrumento da
virtude, não domine a mente, mas que, como serva pronta a obedecer, não deixe
de seguir a razão, pois quanto mais sujeita à razão, tanto mais veementemente
se ergue contra os vícios", como diz Gregório. Aplacar a ira requer paciência.
GULA
Morada da alma, "Orandum est ut sit
mens sana in corpore sano" (Reze para que a mente seja sã dentro de um
corpo são) como rogou o poeta satírico romano, Giovenale, o corpo requer boa
alimentação, higiene e exercícios físicos regulares.
Todo vício é um excesso e o de comida embota
a mente, pois o estômago, quando não é reprimido enfraquece a alma,
tornando-nos menos humanos e mais animais. Belzebu é um demônio que inverte
assentadas hierarquias: ao invés de comer para viver, vive-se para comer.
As filhas do pecado da Gula são: imundice,
embotamento da inteligência, alegria néscia, loquacidade desvairada,
expansividade debochada: "vício capital é aquele do qual - a título de
causa final - se originam outros vícios, enquanto o objeto do vício capital é
desejável intensa e imediatamente" ensina Jean Lauand, ao
apontar que uma das condições de felicidade é o prazer e nada nos dá mais
prazer que comer e beber. Aplacar a gula requer temperança.
ACÍDIA/PREGUIÇA
Quanto à Preguiça, esqueçam o
estereótipo do desocupado prostrado numa rede. Ao nos debruçarmos sobre a
Acídia medieval (a acídia ocupava o lugar de nossa Preguiça) compreendemos
que a "rede" na qual o demônio Belfegor nos enlaça, é outra.
Na Acídia/Preguiça, o espírito
inquieto e perdido se derrama no vasto e variado, o que torna a pessoa apática,
letárgica, totalmente sem foco. E justamente por desenraizar o espírito essa preguiça
entedia e impede o indivíduo de descansar, de relaxar genuinamente - como um
fracassado náufrago que navega à deriva - passam-se as horas, os dias, os anos
e, sem nada que o entusiasme a aportar, sobrevém a depressão.
Em sua obra "Sobre o Ensino (De
Magistro) - Os Sete Pecados Capitais" (Ed. Martins Fontes), o professor
Jean Lauand acrescenta uma análise do Filósofo alemão Joseph Pieper no texto
"Concupiscência dos olhos" que elucida muito a inquietação promovida
pela acídia/preguiça, cuja primogênita é a tristeza, e a segunda filha é o
desespero.
Ao discorrer sobre a Acídia e curiositas Pieper diz: "Há
um desejo de ver que perverte o sentido original da visão e leva o próprio
homem à desordem. O fim do sentido da vista é a percepção da realidade. A
'concupiscência dos olhos', porém, não quer perceber a realidade, mas ver.
(...) A preocupação deste ver não é a de apreender e, fazendo-o, penetrar na
verdade, mas a de se abandonar ao mundo, como diz Heidegger em seu Ser e Tempo.
Tomás liga a curiositas à evagatio mentis, 'dissipação do espírito'
(...)". Isso nos lembra a "nova rede" à qual nos
abandonamos, muitas vezes sem rumo, propósito ou moderação.
Jean Lauand aponta que a acídia/preguiça
seqüestra o homem de si mesmo e lhe subtrai "aquele bem que só a
magnânima serenidade de um coração preparado para o sacrifício, portanto senhor
de si, pode alcançar: a plenitude da existência, uma vida inteiramente vivida.
E porque não há realmente vida na fonte profunda de sua essência, vai
mendigando, como outra vez nos diz Heidegger, na 'curiosidade que nada deixa
inexplorado', a garantia de uma fictícia 'vida intensamente vivida'. Aplacar a
acídia/preguiça requer diligência.
LUXÚRIA
A Luxúria é o mais sedutor dos
vícios, pois seus prazeres são os oriundos do sexo, mas quando em desmedida e
intensamente despudorado. A Luxúria é mais problemática quando a capacidade de
controlar os instintos é ameaçada pela lembrança de indeléveis experiências
ocorridas durante a infância: "Por isso, integrar os instintos é ao
mesmo tempo construir também o inconsciente pessoal, o domínio da própria
vida", afirma o teólogo Anselm Grün, em sua obra "Convivendo com o mal -
A luta contra os demônios no monaquismo antigo".
O demônio da Luxúria (Asmodeus) ama a
pornografia e nos força a desejar outros corpos: "Ele ataca cruelmente
(...) enlameia a alma e a seduz a ações vergonhosas (...). O demônio da luxúria
trabalha, sobretudo através da fantasia, que ele enche de imagens e de
pensamentos impuros, desta maneira obscurecendo a razão".
Como Freud já apontou, alguma renúncia ao
instinto é necessária à civilização. É típico que esse vício atue de modo
repentino, preferencialmente, à noite, libertando e incendiando os instintos
até a mais completa animalidade.
Se os caprichos de Asmodeus forem mesmo
irrecusáveis, que os adultos busquem pessoas e locais apropriados, pois os
pequenos são curiosos, bisbilhoteiros e "um segredo pode influenciar o
destino das crianças sobre as quais ele pesa", alerta o psicanalista
francês Phillipe Grimbert, autor de "Um segredo em família". Aplacar
a luxúria requer castidade.
AVAREZA/GANÂNCIA
O que move o mundo é a ação. Obviamente, uma
vez que a grande maioria das ações empreendidas por nós, em nossa sociedade,
visa à obtenção e acúmulo de capital, têm-se a impressão de que o dinheiro é o
que move o mundo. Instrumento de coação, controle e de grandes injustiças, não
são poucos os malefícios do apego exagerado à matéria.
A Avareza (ganância) também tem sua
compreensão deveras limitada pelo estereótipo do velhinho que amealha e esconde
seu rico dinheirinho embaixo do colchão. O vício da avareza abarca e encampa os
sonegadores, os agiotas, os especuladores, os corruptos, os traidores, os
assassinos e os ladrões.
Temeroso, pois em suas alucinações sempre
fantasia falência e miséria, escravo de suas posses - o avarento sequer as
desfruta - não as possui, é possuído por elas. Não que o dinheiro em si seja
sujo ou ruim, mas o amor excessivo ao dinheiro é raiz de muito mal. A ganância
é freqüentemente associada a uma mulher que, dizem apela para a dissimulação:
aparentando virtude, oculta seu arrivismo, fingindo apenas estar preocupada com
o bem-estar, a educação, enfim, o futuro dos filhos.
Os que lidam com Direito Civil certamente
estão familiarizados com toda essa mal camuflada modéstia. Vale esclarecer que
a ardilosidade não é exclusivamente feminina - os homens também se valem desse
expediente (além da convincente preocupação com a velhice) como pretexto para
justificar submissão à prata. Chegada à idade avançada, tendo propositalmente
optado por uma vida franciscana, checar o patrimônio amealhado pelo avaro
revela a farsa.
Dante retratará a condição dos gananciosos,
avarentos, acumuladores e os esbanjadores. No Purgatório, à espera do perdão,
lá permanecem de bruços, com o rosto colado à terra e, sem poder voltar os
olhos para o céu, repetem incessantemente o Salmo 119: "Minha Alma está
apegada ao pó".
Em aramaico, o nome do demônio da ganância é
Mammon, mas em 1776 o filósofo escocês Adam Smith, ao publicar "A Riqueza
das Nações", obra basilar da Economia Moderna, revolucionou o modo como as
pessoas passaram a ver o dinheiro e, conseqüentemente, a ganância. Essa obra é
a primeira a enumerar os 'Princípios da Economia' e os casos em que o
capitalismo, o desejo de possuir cada vez mais podem ser 'bons', concebendo um
mundo onde a economia seria guiada por uma 'mão invisível'.
A "Mão invisível" é o que
impulsiona a pujança do comércio e das transações: "Nós trocamos algo
que valorizamos menos para obter coisas que valorizamos mais". Como um
invencível 'Leviatã', na "Mão invisível", milhões de pessoas
'funcionam' de forma egoísta, constantemente desejando coisas que querem
através do mercado. Por isso, para a economia, a ganância é um "dom"
e deve ser cultivado em nome do bem-estar social.
A questão não é ser ou não ambicioso, mas
quão ambicioso se pode e deve ser. A perversão se dá quando posses e status
definem quem você é - espantosamente até para si mesmo! A ganância escraviza a
alma, arruína um país, destrói a pólis. O Nobel em Economia John
M. Keynes (1883-1946), em sua obra "Possibilidades econômicas para nossos
netos" (1930), alerta que "O amor ao dinheiro como uma possessão -
distinto do amor ao dinheiro como um meio para atingir os prazeres e as
necessidades da vida - será reconhecido pelo que ele é: uma morbidez um tanto
repugnante, uma dessas propensões semicriminosas, semipatológicas que se
encaminham com horror aos especialistas em doença mental". Aplacar a
avareza requer caridade.
INVEJA
A desprezível deusa romana da Inveja (invidia), por
onde passa seca flores e plantações, envenenando tudo o que é bom.
Inconfessável, a inveja é um vício constrangedor: atormentadora, invade todos
os pensamentos e atitudes do indivíduo. Foi o primeiro pecado cometido pelo
demônio e também o que motivou o primeiro assassinato.
Até mesmo na literatura infantil, a inveja é
o centro das tramas: branca de neve tem sua morte encomendada porque é bela; E
Cinderela é invejada desde antes do grande baile, pois é boa e feliz, mesmo no
borralho. No Purgatório de Dante, os invejosos são condenados a vagar tendo os
olhos costurados com arame. Isso porque a inveja é um pecado cometido pelos
olhos. Em nossa língua, não encontramos uma palavra para definir o que seja
sentir alegria no sofrimento ou má sorte do outro, mas em alemão há: "schadeufreude". Já vivenciar a
alegria do outro como se fosse minha (o antônimo da inveja), nos ensina Jean
Lauand, em grego antigo, é "synkhairía".
Na Hélade, precisamente em Atenas,
periodicamente os cidadãos eram chamados a, secretamente, escrever o nome de
uma pessoa que gostariam que fosse expulsa da cidade num caco de cerâmica
chamado "ostrakon". Se determinado indivíduo tivesse seu nome
registrado muitas vezes, ele era simplesmente expulso da cidade. O período de
ostracismo durava cerca de dez anos. Para quem se recusasse a pena era a morte.
Certa vez, um nobilíssimo e muito distinto
cidadão ao flagrar seu nome sendo escrito indagou: "O que ele fez para que
escrevas seu nome"? - o outro cidadão respondeu: "Nada. É que não suporto
mais ouvir falarem tão bem dele".
O filósofo francês Jean-Jacques Rousseau
(1712-1778), em seu "Discurso sobre a origem da desigualdade entre os
homens" a aponta como inerente - até mesmo a seu famoso "bom
selvagem" invejaria àquele que, dançando melhor, atraísse mais olhares de
admiração. Para que estejamos na mira da inveja não é necessário
que sejamos belos, afortunados ou brilhantes - a felicidade - talvez mais até
que outros atributos, chama mesmo a atenção.
No judaísmo, a inveja não é assim um erro tão
fatal: a dos eruditos aumenta a sabedoria e alguns estudos mais recentes a tem
apontado como sendo mola propulsora do avanço da humanidade. Inveja: "sem
ela não haveria progresso; com ela parece não haver paz".
O "mau-olhado" é o olhar de ódio. Um
espelho a aguardar o invejoso remete o olhar negativo de volta. Trazer como
amuleto o 'olho grego', o petrificante olhar das Gárgulas ou da Medusa, cumpre
essa mesma finalidade: proteger-nos dos invejosos.
Uma das filhas mais famosas da inveja é a
fofoca (sussurratio). Ela calunia, difama, fomenta intrigas, promove
discórdia e desarmonia. Tem um poder de devastação tão grande que consegue
fazer romper de modo irreversível, delicados e belos laços afetivos até mesmo
entre consangüíneos. Mais uma vez, eis o demônio plenamente satisfeito e
realizado. Aplacar a inveja requer generosidade.
Curiosamente, não são poucas as pessoas que
buscam ser alvo de inveja. Daí, adentramos ao mais terrível dos pecados
capitais...
VAIDADE/SOBERBA
Quase inexistentes na Idade Média, na atual
Idade Mídia, os veículos de comunicação, cônscios do poder em alimentar essa
necessidade mundana de ser mais e melhor, incutem na mente das pessoas um
desejo desesperado por "aparecer" e permanecer em evidência:
diferente da inveja, que envergonhadamente se oculta, a Vaidade (soberba) tem
furor pelos holofotes. Não por acaso, seu demônio é Lúcifer - o portador da LUZ.
É necessário esclarecer, porém, que bem
próxima à vaidade (quase se confundindo com ela), há ainda um
erro que Tomás apontou como sendo um pecado "supracapital". É o
empenho feroz que, destituído de virtude (literalmente desvirtuado) busca
alcançar a excelência, ser "o melhor" naquilo que se propõe.
A Soberba é um erro tão descomunal
que atua como uma espécie de guarda-chuva, abarcando sob si todos os demais
pecados capitais. A soberba é bem parecida, mas muito, muito superior à mundana
e prosaica vaidade (inanis gloria - vangloria), tanto que
hoje, nos diz Jean, a Igreja prefere colocá-la no lugar da vaidade,
Orgulho tolo, a vaidade é confronto da
criatura efêmera com seu semelhante. É a prosaica aflição pequeno-burguesa do bípede
implume que, alardeando seus dons "extraordinários", ostenta sucessos
e brada conquistas. É o desejo ingenuamente mundano de divulgar ao máximo,
premeditados, mas indubitavelmente sinceros sorrisos junto à torre Eiffel
(Aspen ou Veneza também servem - e, atire o primeiro tridente quem nunca pagou
esses micos), de pavonear orgulhosamente a nova decoração ou a exibição da
retesada nova fisionomia nas publicações de massa. Na contemporânea Idade
Mídia, Lúcifer se tornou patético e, notoriamente muito mais divertido.
Já a soberba é quando o ser humano
confronta-se e disputa a primazia com o próprio Criador, o 'movente imóvel' aristotélico,
o que está além e acima orquestrando o cosmos (a ordem); seja qual for o nome
que lhe dermos, o fato é que esse demônio não reconhece autoridade além de si.
Superior a todos, eis o capo de tutti i capi: Satã.
Na vaidade, quero ser melhor, mais amado,
mais bonito, inteligente, rico ou bem-sucedido que o vizinho, o colega e até
mesmo (desde o berço) meu irmão; na soberba a distorção do espírito é tão
medonha que não me contento em brilhar entre os pares - para além do bem e do
mal - vanitas descomunal, a rivalidade é suprema: julgo-me no
direito e exijo ocupar o topós (lugar) do Demiurgo. Satanás quer ser Deus.
Como não poderia deixar de convir, aplacar a soberba requer humildade.
Conclusão:
Vencer o mal não consiste em, como no
ascetismo, tolher a "vontade" ou não se permitir ser acometido por
"desejos" - impedir isso não seria nada razoável: vontades, desejos e
paixões, além de tornar-nos humanos são necessários à felicidade, à evolução e
à perpetuação da espécie - mas é sim, priorizando a razão ACIMA dos desejos, que somos
livres para decidir com lucidez quando convém ou não (bem como e o quanto)
satisfazê-los.
Platão afirma que toda ética é estética e
política - ser Bom, Belo e Justo - é decidir livremente com a razão.
Valer-se da liberdade para ser razoável remete-nos ao famoso "imperativo
categórico kantiano", sem dúvida. Mas buscar liberdade para agir com os
instintos seria, convenhamos, um tremendo contra-sendo.
Sim, os "maus daimons" (vícios) nos
tentam o tempo todo, mas é a nós, somente a nós que cabe decidir e escolher o
agir: de livres ou escravos - homens ou animais.
É considerando (con siderio = pôr junto às
estrelas) o "Outro", nosso semelhante (em Filosofia denominamos
"Alter"), que somos éticos, virtuosos.
Como sempre, tudo é questão de bom-senso,
justa medida, equilíbrio, moderação, a famosa "Sophrosyne" grega no
frontispício do Oráculo do deus da harmonia e da saúde, Apolo, na cidade de
Delfos: "Nada em Excesso".