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Capa Agosto de 2009 Bucha: A sociedade secreta do Direito

03/08/2009 por Carta Forense
A antiga sociedade secreta do Direito, conforme relatos esparsos da História foi fundada provavelmente em 1831, pelo professor alemão de História natural do Curso Anexo da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, Júlio Frank.

A origem do nome é Burschenschaft - do alemão bursch, que significa camarada e schaft, confraria. Estas associações já existiam na Alemanha e foram trazidas pelo Professor Júlio a São Paulo. O mesmo pertencia à uma sociedade na Universidade de Gotha.

Esta confraria sofria influência direta dos Illuminati de Weishaupt.  Obviamente, quando se trata de sociedades secretas, é extremamente difícil separar a lenda da verdade ou verificar quanto da verdade há na lenda, principalmente porque esta se presta a reforçar ainda mais o mistério que as envolve, isto é, sua própria motivação.

Sociedades desta natureza encontraram campo fértil em outras comunidades acadêmica no Brasil como lembra Almansur Haddad: na Faculdade de Direito de Olinda/Recife, a Tugendund. A  Landsmannschaft nas Escolas Politécnica de São Paulo e do Rio de Janeiro, a Jugendschaft na Escola de Medicina de São Paulo. A da Politécnica de São Paulo foi presidida por Francisco de Paula Sousa, depois por Ramos de Azevedo e por Rodolfo Santiago e da Medicina, por Arnaldo Vieira de Carvalho.

A Bucha nasceu com a finalidade primordial de proteção aos estudantes de famílias pobres, oferecendo-lhes condições para concluírem seus estudos, bem como o auxílio às suas famílias , caso fosse necessário. Todos os atos da sociedade deveriam ocorrer no mais absoluto sigilo. No entanto a sociedade com o tempo foi tendo desdobramentos em suas atividades, se tornando uma instituição completamente protecionista com seus membros.
Sua estrutura era baseada da seguinte forma: A Bucha era formada por alunos escolhidos entre os que mais se distinguiam por seus méritos morais e intelectuais, não se apresentando eles à sociedade secreta, mas sendo por ela selecionados. Somavam, talvez, dez por cento do corpo discente e eram chefiados por um "Chaveiro".  Um "Conselho de Apóstolos" orientava a Bucha dentro da Faculdade, enquanto o "Conselho de Invisíveis", composto de ex-alunos, numa espécie de prolongamento da vida acadêmica, a aconselhava e protegia fora das Arcadas. Reza a lenda que um dos últimos chaveiros foi o jurista Geraldo Ataliba.

Com o tempo a sociedade ia se tornando cada vez mais forte, ao ver seus membros pertencendo aos mais altos cargos do Império e da vida pública brasileira. Pertenceram à "Bucha" os nomes mais importantes do Império e da República Velha, além, obviamente, dos mais representativos professores da Faculdade de Direito de São Paulo: Paulino José Soares de Souza (visconde do Uruguai), Pimenta Bueno, Manuel Alves Alvim, Joaquim José Pacheco, Ildefonso Xavier Ferreira, Vicente Pires da Motta, Antonio Augusto de Queiroga, Antonio Joaquim Ribas, Mariano Rodrigues da Silva e Melo, Alexandrino dos Passos Ourique (entre os fundadores e primeiros membros da Associação); depois, não por ordem cronológica: Rui Barbosa, Barão do Rio Branco, Afonso Pena, Prudente de Morais, Campos Sales, Rodrigues Alves, Wenceslau Brás, Visconde de Ouro Preto, Visconde do Rio Branco, Pinheiro Machado, Assis Brasil, Francisco Otaviano, João Pinheiro, Afrânio de Melo Franco, Pedro Lessa, Bernardino de Campos, Américo Braziliense, David Campista, Washington Luiz, Altino Arantes, Frederico Vergueiro Steidel, Júlio Mesquita Filho, Cândido Mota, Bias Fortes, Paulo Nogueira Filho, José Carlos de Macedo Soares,César Vergueiro, Henrique Bayma, Spencer Vampré, Sebastião Soares de Faria, Antonio Carlos de Abreu Sodré, Francisco Morato, Waldemar Ferreira, Alcides Vidigal, Rafael Sampaio de Rezende, Arthur Bernardes, Abelardo Vergueiro César, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Fagundes Varela, José Tomás Pinto de Cerqueira, dentre outros

Dos presidentes civis da República Velha, apenas Epitácio Pessoa, como afirma Carlos Lacerda, não foi da "Bucha". E acrescenta: "Todos os demais passaram pela Burschenfaft . E o fenômeno não tem nada demais, é o mesmo fenômeno da maçonaria: uma: uma sociedade secreta em que os sujeitos confiavam nos companheiros, digamos "da mesma origem. Um dia, um sobe e chama o outro para ser governador, para ser secretário, para ser ministro e assim por diante." (Carlos Lacerda, Depoimento, Jornal da Tarde, 28/5/77)
A relação com a maçonaria era também muito forte, conforme afirma os historiadores Bandecchi, Gustavo Barroso e Jamil Almansur Haddad. Bandecchi chega a relacionar nomes comuns às duas. Dentre eles, menciona: Clemente Falcão de Souza Filho (Falcão Filho), Frederico Abranches, Martim Francisco Ribeiro de Andrada III, Clementino de Souza e Castro, Prudente de Morais, Américo Brasiliense, Joaquim Almeida Leite de Morais, José Eduardo Macedo Soares, Bernardino de Campos, Campos Sales, Ubaldino do Amaral, Rangel Pestana, Carlos Reis, Américo de Campos, Quirino dos Santos, Antonio Bento, Almeida Nogueira, Francisco Glicério, Pedro de Toledo, Carlos de Campos, Fausto Ferraz, Armando Prado, Marrey Júnior, Mario Tavares, Fontes Júnior, Júlio Prestes, Ataliba Leonel, Gabriel Rocha e J.A Gomide.


Fora da Academia, prolongando as relações, alguns fatos também poderiam exemplificar a ação da "Bucha". Afonso Arinos, após transcrever carta de Afonso Pena a Pedro Lessa, professor da Academia, em que se refere explicitamente à Burchschaft, datada de 1906, lembra que foi Afonso Pena "quem chamou Pedro Lessa de sua banca de advogado e da cátedra de professor em São Paulo para o Supremo Tribunal. Lessa resistiu ao convite, mas o presidente demoveu-o com esta declaração: "Eu cumprirei meu dever de nomeá-lo, o senhor saberá como cumprir o seu."

Durante a República Velha a Bucha se mostrou uma das sociedades com maior influência dentro do contexto nacional, de tal forma que Getúlio Vargas uma vez confessou para Ademar de Barros, " Não se pode governar o Brasil sem esta gente".

A decadência da Bucha acompanhou passo a passo a perda de substância da República Velha. A fundação da Liga Nacionalista e, subseqüentemente, do Partido Democrático, por dissidentes da Bucha, veio acelerar o seu processo de deterioração.

A Revolução de 1930, que mereceu o apoio desses dissidentes, hostilizou ferozmente a Bucha, com os mais exaltados, tentando até mesmo profanar o túmulo de Júlio Frank, como se o jovem professor alemão fosse responsável pelo desvio de propósitos que sua Ordem sofrera com os anos.

A Bucha, desde sua criação, percorreu décadas em plena ascenção,  arrebanhando grande parte das cabeças mais brilhantes do país, embriagada de poder, inexplicavelmente submergiu sem deixar rastros, embora seu berço e fonte de captação, a Faculdade do Largo de São Francisco, ainda continua formando homens e agora mulheres hábeis para compor suas fileiras, o que a tornaria perpétua.

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