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CRÔNICAS FORENSE A Cachaça

03/09/2013 por Roberto Delmanto

O município do interior paulista era famoso não só pela aguardente de cana que produzia, mas também pelas infindáveis brigas políticas. Uma das disputas mais antigas envolvia um ex-prefeito e um jornalista que fôra vereador durante sua gestão. Sempre que podia, o jornalista não deixava de espicaçar o ex-prefeito em seu jornal, com certeiras ironias.

 

Certo dia chuvoso, ambos, já idosos, se encontraram em uma das principais ruas da cidade. Após uma rápida discussão, o ex-alcaide deu uma guarda-chuvada no jornalista, ferindo-o levemente na testa. À época não havia a Lei dos Juizados Criminais, que prevê apenas a lavratura de um termo circunstanciado e a possibilidade de conciliação e transação. Instaurado um inquérito policial, o ex-prefeito foi denunciado por lesão corporal, tendo meu pai Dante assumido sua defesa.

 

Ao fim do processo, acabou sendo absolvido, pois duas idôneas testemunhas – uma que passava pela rua e outra nela comerciante– ouvidas em juízo afirmaram que, na ocasião, o jornalista ofendera gravemente o ex-prefeito, dando ensejo à sua reação. Entendeu o juiz que ele agira em legítima defesa da própria honra, usando dos meios necessários (o guarda-chuva que portava) e com moderação (dando somente uma guarda-chuvada).

 

Agradecido, o ex-alcaide presenteou meu pai com um garrafão da melhor pinga da região, explicando-lhe que ela só era consumida pelos usineiros e presenteada a poucas autoridades: juiz, promotor, delegado, prefeito, presidente da Câmara e... o pároco local.

 

Como bebesse apenas vinho – e raramente – meu pai me deu o garrafão. Ao provar a pinga, eu e minha mulher logo concluímos que seria um sacrilégio usá-la para fazer caipirinha. Devia ser bebida pura, como aperitivo, em ocasiões especiais. Por isso, guardamos o garrafão em um armário da adega, bem protegido.

 

Nessa época tínhamos uma cozinheira esplêndida, de forno e fogão, uma verdadeira banqueteira. Era uma mulata alta e forte, sempre alegre e sorridente. Uma noite, ao chegarmos em casa vimos que ela não havia feito o jantar, nem se achava na cozinha. Fomos encontrá-la na lavanderia, bêbada como um peru na véspera de Natal, usando óculos escuros para tentar esconder o porre. Os vinhos da adega e as garrafas do bar aparentemente não haviam sido tocados, mas, no dia seguinte, não tivemos outra alternativa senão despedí-la.

 

Algumas semanas depois, em um sábado, antes do almoço, resolvemos tomar a aguardente. Ao abrirmos o armário, encontramos o garrafão completamente vazio. Só aí entendemos a razão da alegria diária e da bebedeira final da cozinheira. Nunca tivemos outra tão boa como ela, nem recebemos de presente uma cachaça tão maravilhosa como aquela...

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ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas,
A Antessala da Esperança, Causos Criminais e Momentos de Paraíso - memórias de um criminalista, os três primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar.

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