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Língua Portuguesa A Gramática Feminina

02/03/2017 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

Amigos: no mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, compartilho com vocês um poema de minha autoria, no qual faço interessantes associações do vocábulo “mulher” com elementos gramaticais, cujos desdobramentos podem ser conferidos nas notas de rodapé. Espero que gostem. Boa leitura!

 

Mulher: dissílaba[1], na classificação;

Oxítona[2], na acentuação.

 

Substantivo comum e concreto[3], na gramática;

Perante todos, um ser “concretamente incomum”.

 

Do gênero feminino, como substantivo[4], a mulher faz parte;

Como ser privilegiado, “faz o gênero” que quiser...

 

Mulher: gênero inclassificável[5]!

 

Mulher: uma palavra sem a força do acento gráfico[6],

Mas que soa forte, como o “sim” e o “não” de uma mulher.

 

Se é dito “eu amo mulher” – o cacófato[7]; se é escrito “mulher docílima” – o superlativo na expressão[8];

Aos prisioneiros de seus encantos, a paráfrase de Caetano adverte: “dulcíssima prisão”[9].

 

Mulher não é verbo;

Se o fosse, de conjugação única, sê-lo-ia... e no tempo verbal “mais-que-perfeito”!

 

Com efeito, na gramática ou fora dela;

O (vere)dito popular ensina: “Ela é a tampa da panela”.

 

Mulher: gênero inclassificável!

 

Mulher: uma palavra com seis distintas letras;

A “alma de mulher”: seis preciosos sentidos...

 

“Mulher” se escreve assim, no singular;

Mas sempre se “lê”, no plural, “mulheres” – um ser multifacetado que é...

 

Se “da vida”, a meretriz; se “fatal”, a sedutora; se “com pudor”, o encanto;

Para os desavisados, leia-se: “Mulher não é sexo frágil, só se o quiser...

 

Daí o seu poder, um “poder-fato”, e não um “poder-dúvida”, como o de certos homens que não a conhecem, de fato...

 

Mulher: gênero inclassificável!

 

Se “mulher-homem”, a opção;

A mulher sem homem, a falta de opção.

 

Mulher irascível: a TPM;

Homem ao lado de mulher com TPM: a tensão.

 

Homem abandona mulher, “mulher-superação”;

Mulher abandona homem, “homem sem chão”.

 

Lugar de mulher, o homem quer decidir;

O homem sem a mulher, perdido sem lugar.

 

Mulher: gênero inclassificável!

 

Mulher “dona de casa”, o trabalho árduo;

Mulher dentro de casa, a organização.

 

Mulher companheira, bem mais que ele;

Mulher fiel, o presente dele.

 

Mulher casada, o compromisso;

Mulher solteira, a busca disso;

 

Mulher professora, com quem aprendemos.

Esposa mulher, com quem convivemos.

 

Mulher: gênero inclassificável!

 

Mulher se vestindo: para outra mulher;

Mulher no espelho: idem, idem.

Cabelos brancos, tinta;

Olhos e sobrancelhas, pinta.

 

Coisas de mulher, o segredo;

Traição de mulher, sem segredo.

Mulher: gênero inclassificável!

 

Mulher moderna, o trabalho;

Mulher no sábado, o salão.

 

Sonho de mulher, compras irrestritas;

Mulher sonhando, paixão à vista.

 

Lágrimas de mulher: o mistério;

Mulher em lágrimas: Delegacia da Mulher!

 

Mulher: gênero inclassificável!

 

Alma de mulher: Chico Buarque;

Mulher e atitude: Alcione.

 

Eu gosto é de mulher”: Ultraje a Rigor;

Perfume de mulher”: filme de rigor!...

 

Mulher de Trinta”, no samba de Miltinho;

A maturidade, em Honoré de Balzac.

 

Mulher sereia, só dentro d`água;

Mulher “Amélia”: fora...de moda!

 

“Mulher honesta”, no Código Penal;

Mulher e “gravidezes”, o detalhe do plural[10].

 

Mulher: gênero inclassificável!

 

Mulher grávida, continuidade do amor;

Mulher mãe, o amor contínuo.

 

Mulher que “dá à luz gêmeos”: gramática em dia[11]!

Ser “mãe-mulher”: uma beleza indizível e, enquanto bela, pleonasmo”[12].

 

De tudo, uma notável certeza:

 

“Mãe-mulher”, de onde viemos;

“Mulher-terra”, pra onde iremos.



[1].   A palavra “mulher” é dissílaba, ou seja, composta por duas sílabas: mu-lher.

 

[2].   A palavra “mulher” é classificada como oxítona, ou seja, um vocábulo cuja sílaba tônica é a última, à semelhança de colher, mister, entre outros.

 

[3].   A palavra “mulher” é classificada como um substantivo comum, quando designa seres da mesma espécie (como menino, boi etc.), e como um substantivo concreto, quando designa seres de existência real (como mãe, pedra, leão etc.).

 

[4]    A palavra “mulher” é classificada como um substantivo feminino (a mulher), possuindo diferente radical da forma masculina (o homem).

 

[5].   O adjetivo “inclassificável” tem a acepção daquilo que não se pode classificar com clareza, no sentido de algo indizível. Este é o significado pretendido nos versos em epígrafe. Frise-se que o adjetivo é dicionarizado, estando previsto no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, redigido pela Academia Brasileira de Letras.

 

[6].   A palavra “mulher” não recebe o acento gráfico, mas apenas o acento prosódico (da fala), indicando que a maior tonicidade recai na última sílaba (-lher), o que a insere na classificação de oxítona (Ver nota 2).

 

[7].   O cacófato (ou cacofonia) é um vício de linguagem que, em razão de uma dada sequência de sílabas, produz som desagradável ou de uso desaconselhável. Exemplos: “uma mão lava a outra” (som de “mamão”); “cinco cada um” (som de “cocada”) etc. No verso do poema, a frase “eu amo mulher” indica som (/mumu/) que deve ser evitado.

 

[8].   Docílimo é um adjetivo (o superlativo absoluto sintético) de “dócil”. Portanto, algo muito dócil é docílimo.

 

[9].   Caetano Veloso lançou, em 1984, a célebre composição musical “O Quereres”, na qual retrata o paradoxo da relação amorosa, referindo-se ao amor pela pessoa amada como “dulcíssima prisão”.

 

[10]O plural de “gravidez” é gravidezes.

 

[11]A mulher dá à luz algo (gêmeos, trigêmeos, menino e menina etc.), e não “a algo”. Note que o verbo dar é transitivo direto e indireto. Assim, sintaticamente, a mãe dá gêmeos à luz, ou seja, despontam na oração o objeto direto (gêmeos, sem a preposição) e o objeto indireto (à luz, com a preposição). Assim, há condenável equívoco na frase “a mulher deu à luz a gêmeos...”

 

[12]O pleonasmo é figura de sintaxe caracterizada pelo emprego de palavras redundantes, com o fim de enfatizar a expressão (como “sorrir um sorriso”, “pedra dura” etc.). No verso, a expressão “mãe-mulher-bela” foi considerada propositadamente como um pleonasmo, no intuito de realçar a beleza feminina como algo intrinsecamente natural.

 

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