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Língua Portuguesa A variedade linguística em Roraima

01/08/2018 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

Certa feita, estive em Boa Vista, capital de Roraima, para ministrar um curso de língua portuguesa a servidores e juízes do Tribunal de Justiça daquele Estado.

 

Voltei de lá muito bem impressionado com a cidade, que achei muito limpa, organizada, com um charmoso “quê” de cidade do interior. O que mais me impressionou, todavia, foi a variedade linguística que caracteriza o Estado, que hospeda inúmeras etnias indígenas, com costumes e língua ainda preservados.

 

A propósito, os “Macuxi” (no singular, realmente, sem fazer a concordância) representam a tribo indígena mais numerosa do Estado. A influência dessa etnia indígena no Estado levou o habitante de Roraima a se autodenominar, carinhosamente, “Macuxi”, em homenagem aos valentes guerreiros daquela tribo.

 

Em tempo, ressalte-se que o vocábulo “macuxi” é grafado com –x por ser de origem indígena. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa abona-o, ao lado de “macuxixiriense”. Lembre-se da regra ortográfica: coloca-se –x em Macuxi pela mesma regra do abacaxi e xavante.

 

No campo da acentuação, as oxítonas terminadas por –i não recebem o acento gráfico. Portanto, não se pode acentuar “Macuxi”, da mesma forma que não acentuamos sucuri e buriti. Aliás, estes dois nomes têm muito a ver com Roraima: a sucuri, a maior de todas as cobras brasileiras, vive nos igarapés roraimenses. E, curiosamente, às margens destes, você vai encontrar o buriti, de cuja polpa sai um bom vinho e deliciosos doces.

 

Mas as curiosidades gramaticais sobre o majestoso Estado não param por aí. Note mais algumas, separadas em itens:

 

1. Fala-se /Roráima/ ou /Rorãima/?

 

O roraimense costuma falar /Roráima/! Não usa o som “do nariz” /ãi/, como em boa parte do Brasil. Notei isso em minha primeira estada em Boa Vista. Todavia, sempre ensinei em sala de aula que duas formas são aceitáveis. Se falamos /Jáime/, podemos pronunciar /Roráima/, com o timbre aberto, sem nasalização. Por outro lado, falamos /andãime/, /Êlãine/ e /pãina/, nasalizando o ditongo. Daí se aceitarem as duas formas. Acho que a pronúncia com o timbre aberto é mais regional, própria do Norte do Brasil; no restante do País, entretanto, costuma-se usar o timbre fechado, com som nasal.

 

 

O mesmo raciocínio pode ser estendido à palavra “Pacaraima”, que indica uma cidade do Estado, próximo à Venezuela. Aceito como legítima a pronúncia regional /Pacaráima/ e acredito que, no Brasil afora, a tendência será falar Pacaraima (ãi). Não vejo a questão como certa ou errada, mas como um dado de preferência regional. Não teria coragem de ensinar a meus alunos que a pronúncia com o timbre aberto (/Roráima/ ou /Pacaráima/) apresenta um erro de ortoepia. Aceito ambas.

 

2. Você usa a expressão “do Oiapoque ao Chuí”? Esqueça-a...

 

Quando queremos dizer que algo vale em todo o Brasil, usamos a expressão “do Oiapoque ao Chuí”. Tirante o fato de que se trata de um clichê, a ser evitado nos textos mais rigorosos, ela encerra um grave problema “geográfico”. Passo a explicar.

Oiapoque, à luz da expressão, está indicando o ponto extremo ao norte do Brasil e Chuí, o ponto extremo ao sul.

 

O problema é que as recentes pesquisas cartográficas mostraram que o ponto mais setentrional do Brasil não é mais o Oiapoque, mas um ponto geográfico localizado no Estado de Roraima, na fronteira com a Venezuela. Eu me refiro ao Monte Caburaí. Portanto, adeus à expressão “do Oiapoque ao Chuí”. Devemos substituí-la por: “Do (Monte) Caburaí ao Chuí”. Veja que até surgiu uma boa rima!

 

Em tempo, frise-se que os vocábulos “Caburaí” e “Chuí” recebem o acento gráfico pela regra de acentuação dos hiatos. Na separação silábica dos termos (Ca-bu-ra-í; Chu-í), nota-se que as vogais ocupam sílabas diferentes (Ca-bu-rA-Í; ChU-Í), ficando a letra “i” isolada na sílaba final. Nesses casos, o acento será obrigatório. É o que acontece com os termos anhangabaú, Itaú, juízes, juíza e outros.

 

3. Como se pronuncia “Guiana”: /Gu-iana/, /Gui-ana/ ou /Güi-ana/?

 

Inicialmente, vale relembrar que o Estado de Roraima faz fronteira com a Venezuela e com a República Cooperativista da Guiana. Este último País, localizado bem ao norte da América do Sul, tem em seu nome mais comum (“Guiana”) uma pronúncia que pode nos pegar desprevenidos.

 

Tenho recomendado em sala um macete: pense em nosso nome próprio RUI. Esta palavra é forma por uma sílaba apenas, na qual se destaca o ditongo ui. Da mesma forma, faremos a separação silábica de “Guiana” (Gui-a-na) e seguiremos fiéis na pronúncia /Gui-ana/. Veja que o “u” é pra ser pronunciado, constituindo-se o ditongo com o “i”, na forma ui.

Reconhecemos que a realidade sonora do termo é um tanto estranha, desafiando nosso sistema gráfico, mas isso não nos permite modificá-lo. Portanto, devemos continuar escrevendo “Guiana” e falando, exoticamente, /Gui-ana/, como na palavra “Rui”.

 

Esses são alguns detalhes gramaticais que pude colher dessa viagem agradável a Boa Vista. Sempre voltarei ao Estado, se Deus quiser. Aliás, Ele há de querer, pois aprendi com Dorval de Magalhães, que escreveu o Hino do Estado, que Roraima é a “benesse das mãos de Jesus”.

 

 

 

 

 

 

 

 

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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