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REFLEXÃO Automação: estamos diante de uma nova revolução industrial?

 

Queiramos ou não, cada vez mais a automação marca presença nas empresas, especialmente as industriais, já começando até a invadir a privacidade dos nossos lares. Tenho visto máquinas automatizadas que varrem o chão e limpam piscinas, que “sabem” quando precisam parar ou quando devem projetar mini-aspiradores adequados a cuidar dos cantinhos da sala, que detectam degraus e param seu percurso no alto das escadas sem se precipitarem degraus abaixo. Algumas, até “ouvem”, pois são acionadas e comandadas pela voz humana. Escrevi alguns artigos e crônicas nos quais minha voz, captada pelo computador, era convertida em perfeitas palavras, expressões e ideias.

 

A robótica, a qual, quando eu era moço constituía apenas assunto de dileção da literatura da “science fiction” e até se ligava ao velho mito do “homunculus” visado pelos alquimistas e magos antigos, hoje é uma realidade do nosso dia-a-dia. Refiro-me não apenas a robôs antropomórficos, do gênero dos idealizados e celebrizados por Isaac Asimov (quem não se lembra do “homem bicentenário”, o robô humanizado representado no cinema por Robin Williams?), mas a máquinas de diversos tipos e formas que, mesmo sem ter o aspecto físico de homens ou mulheres, realizam funções que antes eram desempenhadas por seres humanos.

 

A velha imagem da linha de produção – concebida e genialmente transformada em realidade por Henry Ford – já é coisa do passado: um comprido galpão de 400 ou 500 metros de extensão, ao longo do qual se distribuíam centenas de operários, cada um deles monótona e maquinalmente repetindo determinada operação, sobre um produto em construção que ia, pouco a pouco, tomando a forma de um automóvel, isso já não mais existe. Nas modernas fábricas de automóveis, como por exemplo, na Hyundai sul-coreana, a maior parte das operações repetitivas não são realizadas por humanos, mas por máquinas.

 

Existe atualmente até um “meio” – perdoem-me a palavra os jovens leitores, por certo muito mais atualizados em informática e automação do que eu – chamada Mecatrônica. Digo “meio” porque não sei exatamente como classificar essa tal de Mecatrônica. Talvez seja uma técnica, um instrumento, uma disciplina, ou uma área de conhecimento. Talvez já esteja elevada à altura de uma conspícua e respeitável ciência. Sei que existem hoje, em São Paulo, cursos de Mecatrônica que ensinam a projetar e construir máquinas que substituem os humanos nos trabalhos pesados, assim como naqueles repetitivos, que são cansativos não propriamente porque requerem grande esforço, mas porque são monótonos e enjoados.

 

Mecatrônica é, pois, “algo novo” que permite aos seres humanos evitarem muitos trabalhos. À primeira vista, pois, trata-se de uma novidade simpática. Nas modernas fábricas, aos humanos são reservadas somente as tarefas mais nobres, aquelas que requerem discernimento, criatividade e iniciativa que, pelo menos por enquanto, não são atributos das máquinas.

 

Numa concepção rósea e ingênua da produção industrial, no dia em que as máquinas atingirem um altíssimo grau de desenvolvimento, o trabalho humano estará muito aliviado. Fábricas deixarão de ser locais em que se trabalha arduamente com o objetivo de “comer o pão com o suor do próprio rosto” – como se lê na frase bíblica. Passarão a ser locais agradáveis, lúdicos, em que os operários apenas exercerão, poucas horas por dia, a mais elevada e nobre das atividades humanas, que é ao mesmo tempo aquela que menos esforço físico lhes custa: eles pensarão. Exercerão sua racionalidade. Apenas controlarão as máquinas e guardarão o melhor de sua potencialidade para criar novos engenhos que ainda mais diminuam o esforço do gênero humano. Melhor não poderia ser. A A automação nas indústrias abre caminho para transformações muito grandes nas condições da vida humana e pode cobrar muito caro as vantagens que proporciona. Refiro-me ao problema do desemprego. Quanto mais automatizada for uma empresa, menos mão-de-obra será nela necessária. E quanto menos especializada for a mão-de-obra, mais dispensável será para o funcionamento dessa empresa.

 

Os custos industriais, a alta carga tributária, a complexidade das exigências trabalhistas, tudo isso encarece o produto. Pressionado pela concorrência, é compreensível que o empresário automatize ao máximo sua indústria e que procure diminuir tanto quanto possível seu quadro funcional. Cortará, é claro, onde é mais fácil cortar, ou seja, no quadro de empregados que executam apenas trabalhos que não exigem habilidades especiais nem conhecimentos técnicos mais avançados; esses serão preferencialmente substituídos por máquinas, que ficarão em seus lugares com muitas vantagens: máquinas não recebem salários, elas dispensam descansos semanais e períodos de férias, não acarretam despesas de previdência social e FGTS, não brigam nem litigam com seus donos, não movem ações trabalhistas contra eles.

 

Privilegiados serão os empregados humanos habilitados a controlar e gerir as máquinas, que substituirão seus colegas menos aquinhoados por talentos que as relações de produção atuais valorizam. O desemprego crescerá, atingindo sobretudo os menos capacitados, e poderá alcançar proporções calamitosas.

 

Note o leitor que muitas profissões já desapareceram ou estão em vias de desaparecer. Hans-Peter Martin e Harald Shumann, em seu livro “A armadilha da globalização”, dizem que, antigamente, na construção de um grande edifício, para “mandar cimento lá pra cima”, havia necessidade de 80 empregados. Hoje são precisos somente 3” (Rio de Janeiro, 1999).

 

Já não mais vemos, hoje em dia, profissionais que há décadas eram numerosos: onde estão, por exemplo, os ascensoristas e os cobradores de ônibus? E os alfaiates e costureiras? Desapareceram, pura e simplesmente, ou só restaram alguns, como os “lanterninhas” das nossas antigas sessões de cinema. A tecnologia tomou seu lugar. Nas instituições bancárias, máquinas informatizadas expulsaram um número incontável de atendentes e forçaram à redução salarial dos poucos “privilegiados” que ainda conservam seus postos.

 

No campo, cada vez mais a produção agrícola é feita por máquinas. A figura clássica e não desprovida de poesia do velho que, de enxada na mão, arava os campos ou que colhia o café ou os flocos de algodão manualmente, tudo isso desapareceu. Hoje há máquinas que executam rápida e eficazmente essas tarefas. São gigantescos engenhos, conduzidos e controlados em cabines com ar condicionado por técnicos que, muitas vezes, possuem cursos universitários ou, pelo menos, tecnológicos avançadíssimos. Com isso, lucra o produtor, lucra o país, beneficia-se a sociedade em geral que, pelo menos teoricamente, poderá obter alimentos abundantes e mais baratos. Mas, pergunto, e aquela parcela da sociedade mais desprotegida, aquela que se poderia considerar “tecnologicamente excluída”, como fica ela? Desempregada? Reduzida a subempregos? Forçada a migrar para a economia informal, quiçá para o campo da ilegalidade?

 

Estamos diante de uma nova revolução industrial?

 

Há dois fatores que, unidos, me apavoram:

  1. O Brasil pouca importância dá à automação.
  2.  Nosso desemprego cresce a cada dia.

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DAMÁSIO EVANGELISTA DE JESUS

Damásio Evangelista de Jesus

Advogado, Professor de Direito Penal, Presidente do Complexo Jurídico Damásio de Jesus e Diretor-Geral da Faculdade de Direito Damásio de Jesus. Autor da Editora Saraiva.

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