Página Inicial   >   Colunas

NOTÁVEIS DO DIREITO Dutra Rodrigues e a lenda da "loira do banheiro"

04/06/2018 por Alessandro Hirata

 

O título da coluna desse mês pode soar bastante estranho. Afinal, qual a relação do catedrático de direito romano do século XIX e a famosa lenda urbana da “loira do banheiro”? Dutra Rodrigues foi um dos precursores do direito romano no Brasil e tem como grande curiosidade de sua biografia a origem da lenda urbana.

 

Nascido na capital carioca e então capital do Império brasileiro, em 1844, Francisco Antônio Dutra Rodrigues transfere-se para São Paulo. Ingressando na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, recebe o grau de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais em 1865. Como é de praxe na época, recebe o grau de doutor em direito logo em seguida, em 1866.

 

Em 1872, Dutra Rodrigues presta concurso para lente substituto da Faculdade de Direito, obtendo o primeiro lugar. É nomeado em 9 de outubro de 1872 para a vaga. Em 1879, dotando de grande reputação como advogado e professor, Dutra Rodrigues contrai matrimônio com a jovem de 14 anos, Maria Augusta de Oliveira Borges, filha do poderoso Visconde de Guaratinguetá, Francisco de Assis e Oliveira Borges. Apesar das pouquíssimas fontes, consta que o casamento tenha sido anulado por tempo depois, por incompatibilidade entre os cônjuges.

 

Por meio de Decreto de 25 de junho de 1881, atinge o grau máximo da carreira universitária, sendo nomeado para a cátedra de Direito Romano. Torna-se, assim, professor catedrático como sucessor de Duarte de Azevedo. Nas palavras de Spencer Vampré, também professor da São Francisco e já relatado por essa coluna, Dutra Rodrigues tem atuação marcante como docente: “Foi Dutra Rodrigues afamado professor: embora prolixo, e difuso, era penetrante nas críticas, e apostilas de Direito Romano, conhecidas pelos nomes de Dutrinha, e Dutrão, serviram de pábulo a muitas gerações de estudantes. Falava torrencialmente, como José Bonifácio, mas repetia, em cada ano, quase literalmente, o que expusera nos anteriores. Quando freqüentamos a Faculdade, no qüinqüênio de 1905 a 1909, eram ainda lidas as suas lições, com justo acatamento”.

 

Famosas são suas apostilas de direito romano, destinadas aos alunos de seus cursos, e carinhosamente chamados de “Dutrão”, o mais complexo, e “Dutrinha”, o mais resumido. Extensos e detalhados, esses compêndios são usados por diversas gerações de estudantes da Faculdade de Direito.

 

Sua reputação é notável: é nomeado Conselheiro do Império e presidente do Banco de Crédito Real. Além disso, Dutra Rodrigues ocupa o cargo de Presidente da Província de São Paulo, cargo máximo do executivo paulista, no período entre o dia 27 de abril a 23 de junho de 1888. Ele vem a falecer logo em seguida, com apenas 44 anos de idade, no dia 29 de setembro de 1888.

 

Apesar de sua brilhante carreira e reputação irretocável, Dutra Rodrigues tem sua biografia ligada à pitoresca lenda urbana do imaginário brasileiro. Segundo as tradições que tentam explicar a lenda urbana da “loira do banheiro”, Maria Augusta de Oliveira Borges, filha do Visconde de Guaratinguetá e esposa de Dutra Rodrigues, era jovem belíssima, de cabelos alourados e grandes encantamentos. Insatisfeita com o casamento arranjado, bastante comum à época, desejava uma vida agitada na corte, o que era completamente incompatível com o cotidiano austero e de estudos de Dutra Rodrigues. Além disso, era 20 anos mais jovem que seu marido, o que dificultava ainda mais a relação.

 

Conseguida a tortuosa anulação religiosa do casamento, Maria Augusta vende suas jóias e foge para a Europa, aos 18 anos de idade. Em 1891, com apenas 26 anos de idade, Maria Augusta falece em Paris. Sua família traz seu corpo de volta ao Brasil. Enquanto o mausoléu era construído, sua mãe, Amélia Augusta, abalada com a morte de sua filha, não mais queria enterrá-la. Passa, então, a ter visões da filha pedindo que fosse enterrada, decidindo, finalmente, pelo seu sepultamento.

 

A casa da família, em Guaratinguetá, onde o corpo de Maria Augusta ficou antes de seu sepultamento, é transformada, em 1902, na Escola Estadual Conselheiro Rodrigues Alves. Em 1916, um misterioso incêndio consume parte da escola. Daí surge a lenda urbana, dizendo que Maria Augusta teria morrido de raiva, doença comum na Europa da época e que causa desidratação nas vítimas. Assim, o espírito andaria pelos banheiros da escola, abrindo torneiras para saciar sua sede e pedindo que seja enterrado. 

 

Baseada na lenda urbana anglo-saxã da Bloody Mary, a “loira do banheiro” brasileira povoa o imaginário de diversas gerações de jovens e faz parte da história popular de nossas escolas, tendo ligação direta com o jurista e romanista, Dutra Rodrigues.

Comentários

BEM-VINDO À CARTA FORENSE | LOG IN
E-MAIL:
SENHA: OK esqueceu?

ALESSANDRO HIRATA

Alessandro Hirata

Professor Associado da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo. Livre-docente pela USP e Doutor em Direito pela Ludwig-Maximilians-Universität München (Alemanha).

NEWSLETTER

Receba nossas novidades

© 2001-2018 - Jornal Carta Forense, São Paulo

tel: (11) 3045-8488 e-mail: contato@cartaforense.com.br