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Língua Portuguesa Eu me chamo peixe-boi...

10/03/2008 por Eduardo de Moraes Sabbag

Duas dúvidas gramaticais deixaram nossos alunos aflitos nos últimos dias: o uso adequado do verbo pronominal "chamar-se" e uma curiosidade sobre o peixe-boi - no caso, o seu feminino. Abaixo, procuro elucidar a celeuma, sugerida no título do presente artigo: "Eu me chamo peixe-boi"...

 

1. Indique a forma correta: "Como você se chama?" ou "Como você chama?": se o intuito é descobrir o nome de outrem, a dúvida é de fácil solução. "Como você se chama?" - esta é a forma adequada para se indagar acerca do nome de cada um. É preciso utilizar o verbo na forma pronominal, impondo-se o uso do "se" na pergunta e do "me" na resposta. Note o diálogo, com correção:

 

- Como você se chama?

- Chamo-me Abílio. [ou Eu me chamo Abílio.]

 

De fato, o verbo chamar, no sentido de ter ou possuir um nome, deve sempre estar acompanhado de um pronome átono (me, te, se, nos, entre outros, dependendo da pessoa). A correspondência é necessária:

 

Como ela se chama? (e não "Como ela chama?"); e

Chamamo-nos José e João. (e não "Chamamos José e João.")

 

Na língua oral, mais econômica, é inegável a tendência de suprimir partículas. A ausência do pronome, todavia, dará ao verbo chamar acepções distintas daquela até aqui estudada. Observe as duas situações abaixo:

 

a)         quando se pergunta "Como você chama?", sem o uso do pronome "se", quer-se inquirir acerca do modo como alguém chama algo ou outrem, fazendo-se ouvir - por exemplo, com dois toques na porta, com a buzina do carro, com um grito alto -, e não sobre a identidade do destinatário da fala;

b)        quando se diz "Eu chamo José.", sem o uso do pronome "me", a idéia transmitida é a de que o falante está pedindo a presença de alguém, convocando a vinda daquele fulano, chamado José.

 

Veja a falta que o pronome faz...Chame-o, pois, sempre que necessário!

 

2. "Qual o feminino de peixe-boi?": o feminino deste peixe é, como digo em minhas aulas, "para poucos", até mesmo, "dentro ou fora d`água...".

Talvez o amigo leitor nunca tenha ouvido falar em "peixe-mulher". Pois bem. Este é o feminino de peixe-boi! Todavia, as duas formas indicam palavras do gênero masculino: diz-se, no masculino, o peixe-boi e, ainda, no masculino, o peixe-mulher. Assim, não se deve utilizar a forma "a peixe-boi fêmea" ou, valendo-se de mirabolante imaginação, a hilária expressão "a peixe-vaca"!

Curiosamente, a confusão transita em abundância na imprensa. O pacato mamífero tem levado os jornalistas a cômicos equívocos.

Certa vez, viu-se em título de reportagem a chamada "Ultra-som confirma gravidez de peixe-boi em cativeiro na Amazônia". Ora, peixe-boi não engravida, não é mesmo?

Em outra situação, a inadequada concordância esteve patente na manchete de um jornal: "Com um ferimento na região ventral, o peixe-boi Nina, uma fêmea de 2,53 metros de envergadura, pode ser transferida do Rio Tatuamunha, em Porto de Pedras, Litoral Norte de Alagoas (...)". Vamos e venhamos... Por que tanta oscilação nos gêneros? Procedendo à correção, teremos: "Com um ferimento na região ventral, o peixe-MULHER Nina, uma fêmea de 2,53 metros de envergadura, pode ser transferidO do Rio Tatuamunha, em Porto de Pedras, Litoral Norte de Alagoas (...)." Note que, se queremos nos referir à fêmea, devemos utilizar a forma correta "peixe-mulher", sem fugir à concordância com o gênero masculino [ O peixe-mulher (...) pode ser transferidO ].

 

Para os que prestam concursos, vale a pena guardar a minúcia. O feminino de "peixe-boi" - como se viu, "o peixe-mulher" - foi pedido há alguns anos, num concurso para oficial de justiça feito em São Paulo. Aproveite o ensejo e memorize, de lambujem, que a espécime vive 60 (sessenta) anos e que chega a pesar 600 Kg. Caso contrário, poderá  "nadar, nadar, e morrer na praia..."

 

Comentários

  • Eliane
    19/09/2012 14:57:17

    Se o verbo chamar-se é pronunciado em terceira pessoa como: ela "chama-se", pq digo Ela se chama....?

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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