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LÍNGUA PORTUGUESA Música e Gramática

02/04/2018 por Eduardo de Moraes Sabbag

Se a música for popular brasileira, uma certeza despontará: letras com conteúdo e variações linguísticas, servindo como ponte providencial entre a música e o estudo da gramática. Afinal de contas, como diria um amigo músico: “A MPB é tão gramática quanto a própria gramática”.

 

De fato, até complementaria, afirmando que a boa música colabora para minar a resistência do estudante no processo – “rabugento”, talvez – de assimilação da gramática normativa. Quem não se lembra dos pontuais ensinamentos de Napoleão Mendes de Almeida: eram justos, porém tendentes à reprovação contínua. A palmatória parecia estar sempre ao lado...

 

Nesse passo, não se pode deixar de reconhecer que o mestre Pasquale Cipro Neto deu nova “cara” à Língua, aproximando-a de nossa música, associando-a ao bom-humor e distinguindo a norma culta da vitalidade linguística, sem “cara amarrada” ou ira desmedida.

 

Como professor de português, não posso me afastar da padronização exigida pelo padrão culto, porém reconheço que não deve haver crises histéricas ou proliferação excessiva de rótulos preconceituosos.

 

Nesse passo, sempre recomendo a meus estimados alunos: ouçam MPB e leiam poesia!

 

Certa vez, fiz uma experiência em sala de aula: dividi-a em quatro grupos e lhes pedi que pesquisassem trechos da MPB com a utilização do padrão culto formal. O resultado foi elogiável. Encontraram letras emblemáticas e exemplos elucidativos. Vamos analisar alguns deles:

 

(...) Ah, que coisa boa! / À meia luz, a sós, à toa / Você e eu somos um / Caso sério (...) (Canção “Caso Sério”, de Rita Lee e Roberto de Carvalho)

 

O verso mostra o uso apropriado das locuções adverbiais com o sinal grave obrigatório, indicador da crase – “à meia luz” e “à toa”. Ademais, traz exemplo de concordância verbal adequada: “(...)você e eu somos um caso sério (...)”. Parabéns aos autores do verso e aos alunos descobridores!

 

Outro grupo pesquisou com brilhantismo e trouxe os versos da canção “Fala Baixinho”, de Pixinguinha e Hermínio B. de Carvalho:

 

(...) Eu acho até que eles nem sentem não / Espalham coisas só pra disfarçar / Daí então por que se dar ouvidos a quem nem sabe gostar (...)

 

 

Demonstraram os alunos erudição musical, ao citar o mestre Pixinguinha, que ratificou o uso de rigor do “por que” separado, como sinônimo de “por qual motivo” no trecho “(...) Daí então por que se dar ouvidos a quem nem sabe gostar (...)”.

 

Aliás, um trecho de sabedoria singular: tinha razão o mestre Paulinho da Viola, quando afirmou tratar-se Pixinguinha do “maior e mais importante músico brasileiro de todos os tempos...

 

O terceiro grupo sacou versos mais recentes e não menos pontuais:

 

(...) Ela fazia muitos planos / Eu só queria estar ali / Sempre ao lado dela / Eu não tinha aonde ir (...) (Canção “Ainda é Cedo”, de Renato Russo, Marcelo Bonfá, Dado Villa Lobos e Ico Ouro Preto)

 

Com efeito, Renato Russo houve por bem ao empregar a preposição “a” com o verbo “ir”, indicativo de movimento. Sob a ótica da norma culta, o emprego de “aonde” está impecável. Se não houvesse idéia de movimento, ter-se-ia espaço para “onde”. Nota máxima para o grupo de alunos e para o mito Renato Russo.

 

O último grupo escolheu trecho especialmente emblemático: buscou a pena de Castro Alves, nos versos da Poesia “Quando Eu Morrer”:

 

(...) Oh! Perguntai aos frios esqueletos / Por que não têm o coração no peito... / E um deles vos dirá ‘Deixei-o há pouco / De minha amante no lascivo leito.’ (...)

 

Nem precisa dizer a nota: dez para os alunos e para o imortal “poeta dos escravos”, que mostrou rigor (I) na utilização do verbo “ter” na forma plural acentuada (têm), concordando com o sujeito “frios esqueletos”; (II) na utilização apropriada do tempo presente no modo imperativo, em segunda pessoa do plural “vós” (“perguntai” em contraponto com o pronome “vos”); (III) e no uso impecável da inversão na frase: “Deixei-no no lascivo leito de minha amante há pouco”.

 

Como se viu, a sala toda aprendeu uma lição: a música e a poesia podem ser a ponte entre o conhecimento e a diversão certa. Aliás, como já dizia Nietzsche, “Sem a música, a vida seria um erro”.

 

 

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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