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CRÔNICAS FORENSES O BOM MOTORISTA

04/06/2018 por Roberto Delmanto

Quando François Mitterrand, então com menos de 50 anos, disputou pela primeira vez a Presidência da França, competindo com Charles De Gaulle, herói da 2ª Guerra Mundial, à época com 75, as pesquisas indicavam um empate técnico.

 

Foi então que, às vésperas da eleição, Paris e outras cidades apareceram com outdoors perguntando: “Você emprestaria seu carro novo a um motorista de 75 anos?” Poucos dias após, em resposta, os gaullistas colocaram outros cartazes com a pergunta: “Você emprestaria seu carro novo a um motorista sem carta?” Ganhou De Gaulle...

 

O conceituado professor das Arcadas, contemporâneo de meu pai Dante, embora aposentado, continuava indo todos os dias ao seu escritório de advocacia no centro da cidade. Perto dos 80 anos, continuava sendo um excelente e super cuidadoso motorista, estacionando seu carro em uma praça das proximidades.

 

Certo fim de tarde, ao deixar o escritório, entrou em seu automóvel e, quando o manobrava para sair da vaga, escutou um grito. Ao descer do carro, viu que uma gari alegava ter ficado com a perna momentaneamente presa entre a guia da calçada e o parachoque traseiro do seu automóvel.  Perguntou a ela se tinha se ferido e, diante da resposta negativa, foi embora.

 

Pouco depois, a gari começou a sentir dores e um dos transeuntes, que anotara a placa do veículo, chamou a polícia, que lavrou um boletim de ocorrência, no qual a gari o acusava de lesão corporal culposa e abandono do local sem prestar-lhe socorro.

 

Algumas semanas após o mestre foi intimado a comparecer a um Distrito Policial. Tomando conhecimento do B.O. mostrou-se indignado, principalmente com a acusação de omissão de socorro, pois seus princípios morais e éticos jamais permitiriam que assim agisse.

 

À época não havia Juizado Especial Criminal ou os institutos da transação penal e da suspensão condicional do processo, nem o termo circunstanciado, que hoje substitui o inquérito policial.

 

Como seu advogado, propus-lhe que fizéssemos um acordo com a gari, mas ele se recusou terminantemente. Foi quando seu filho, preocupado com a grande tensão do pai, decidiu fazê-lo por conta própria. Indenizada, a gari, ouvida em aditamento, restabeleceu a verdade, reconhecendo que fora imprudente ao tentar limpar a guia quando o carro era manobrado; e mais: que o professor descera do automóvel e lhe perguntara se havia se ferido, tendo, na hora, respondido negativamente.

 

O inquérito não chegou, então, a ser instaurado, e o renomado mestre, sem saber do acordo, se sentiu reconfortado...

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ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas, O Gesto e o Quadro, A Antessala da Esperança, Momentos de Paraíso-memórias de um criminalista e Causos Criminais, os quatro primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar”

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