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ATUALIDADE O Brasil sempre foi governado por máfias

01/08/2017 por Luiz Flávio Gomes

 

Vários países avançados (Suécia, Suíça, Noruega, Dinamarca, Alemanha etc.), em virtude das suas conquistas civilizatórias, criaram anticorpos suficientes para evitarem que suas classes dirigentes (políticas, econômicas e financeiras) se tornassem sistemicamente corruptas e mafiosas (violentas).

 

Apesar de contarem com histórias completamente diferentes, esse não é o caso da Itália nem do Brasil, que com suas crises civilizatórias contínuas se dobraram ao processo de mafialização das suas instituições e relações.

 

Todas as dez principais características dos grupos mafiosos tradicionais (Cosa Nostra, ‘Ndrangueta, Camorra etc.) estão presentes (em maior ou menor grau) no crime organizado político-empresarial-financeiro que sempre governou o Brasil. São elas (ver A. Cavadi, La Máfia):

 

1ª) estar no exercício do poder (na maior dimensão que se conseguir); 2ª) escopo de enriquecimento (para aumento da fortuna pessoal ou conquista ou preservação do poder); 3ª) apoderamento (captura) da maior parcela possível do Estado (não se trata de poder paralelo; é o poder do próprio Estado que é sequestrado); 4ª) infiltração em suas instituições (políticas, econômicas, jurídicas e sociais, em busca da riqueza e da impunidade, como a do TSE, por exemplo); 5ª) clientelismo (troca de favores e proteção aos amigos, parentes e correligionários).

 

Mais:

 

6ª) manipulação do jogo eleitoral (apropriando-se da democracia, onde vigora este regime); 7ª) domínio da política pelo poder do dinheiro (abrindo-se caminho para um tipo de capitalismo corrupto entre amigos, sem concorrência); 8ª) “aparato de justificação” (busca de apoio e consenso social, para a implantação e preservação das desigualdades – Piketti – e da cultura da corrupção: os mafiosos são temidos, mas querem mesmo ser “respeitados”, “admirados”); 9ª) uso intenso da intimidação e das ameaças para dominar certo território e suas instituições.

 

Tudo isso faz parte do dia-a-dia dos costumes e tradições das elites que governam o Brasil (seja esquerda, de direita ou de centro). A Lava Jato está revelando tudo em detalhes. Essa delinquência é do tipo mafioso, porque também não lhe falta a 10ª característica, que consiste no uso sistêmico da violência (da via sanguinária), friamente “calculada”, “programada”, para alcançar seus objetivos.

 

De 1979 a 2013, segundo reportagem (premiada) de Leonencio Nossa (Estadão 12/10/13), 1.133 pessoas no Brasil foram vítimas de assassinatos políticos (ou seja, por motivação política). Barbárie monstruosa (e silenciosa) escondida debaixo dos tapetes. O mito popular do brasileiro cordial só contribui para a perpetuação do crime organizado mafioso no poder.

 

Não é por acaso que o Brasil é o 9º país mais violento do planeta (com 30 assassinatos para cada 100 mil pessoas). Somente na campanha eleitoral de 2016 foram 28 mortes intencionais. Dezesseis delas no RJ (Folha).

 

Esses bandoleiros, que contam com aparatos de justificação (mídia, intelectuais, escolas etc.) e de proteção (das instituições de fiscalização, como o STF), nunca mudarão seus costumes e tradições sem uma intensa educação e repressão.

 

As classes dirigentes degeneradas e inescrupulosas não passam de 0,01% da população. Mesmo assim, governam mais de 207 milhões de pessoas.

 

 

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LUIZ FLÁVIO GOMES

Luiz Flávio Gomes

Doutor em Direito penal pela Universidade Complutense de Madri, Mestre em Direito Penal pela USP e Diretor-Presidente da Rede de Ensino LFG. Foi Promotor de Justiça (1980 a 1983), Juiz de Direito (1983 a 1998) e Advogado (1999 a 2001). Autor de obras pela RT e Saraiva.

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