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Ensaio O curioso caso do assalto ao chinês

Preciso pesquisar mais, mas não dá tempo, queria saber o nome daquele pano que as chinesas amarram, numa verdadeira obra de arte da engenharia, pra colocar o filho nas costas como se fosse em uma mochila, e então você vê o menino sorrindo porque está feito um marsupial, e o pessoal na internet, veja, querendo vender aqueles carrinhos de bebê italianos por milhares de reais. Faz parte. Bom, não vou interromper a escrita pra sair em busca do nome do objeto, o que me tiraria a espontaneidade e, pior, me evitaria o trabalho de descrevê-lo. Que também faz parte. O que importa é o menino sorrindo às costas da mãe, a dar início a uma história como todas as do meu bairro: sobre honra, justiça, amor e morte. Pra que mais?

 

Porque veja o que ocorre: estamos no meu bairro no centro de São Paulo, e a mãe vai descendo a ladeira, levando  o filho às costas e (acho que) sacolas de compras nas mãos. Se fosse uma cena de filme, eu iria relatar para que tudo o que vem adiante ocorresse sem que o bebê notasse, feliz da vida, mas seria desonesto com quem me contou a cena, porque me descreveu que o sino-brasileirinho foi o primeiro a abrir o berreiro quando alguém se aproximou por detrás e mandou a chinesa entregar bolsa e sacolas, do contrário o menino ia morrer. Sim, a ameaça, ao que consta, houve no pescoço da criança, e claro que a mãe não conseguiu olhar o menino mas sentiu seu desespero, ou porque o ouviu chorar, ou porque estava corporalmente ligada a ele, ou porque é mãe e pronto. Mais provável a última hipótese, até porque, ao que consta, a imigrante não fala o português, então compreendeu por instinto a ordem malévola. Segue. O adolescente-em-conflito-com-a-lei desaparece com os itens expropriados e a chinesa, longe das pautas identitárias, baixa o filho para seu colo, para ver se está vivo. Está tudo bem com a criança, e logo os passageiros de um ônibus descem todos pra ajudar a mãe, e em seguida a polícia aparece. Mas era pra tirar o ônibus da rua, que estava atrapalhando.

 

Era um nóia conhecido ali, mas veja o alcance do problema: (i) o assalto ameaçando a mãe em osmose com o filho representa, de um lado, uma afronta ao, por assim dizer, sentimento geral de humanidade: crianças tem de ser poupadas desse mundo bestial; (ii) depois, à cultura identitária dos chineses, já que a invenção genial do objeto aqui inominado é sua marca registrada; e (iii) representa uma hipérbole de covardia, porque surpreende e paralisa a vítima de tal forma que, literalmente, o assalto é tirar doce da criança. Essas questões não foram assim verbalizadas no bairro, mas permeavam toda a discussão no salão de barbeiro dali, somadas a um sentimento geral de prevenção geral negativa: alguma medida teria de ser tomada.

 

O povo ali também sabemos que justiça que tarda não é justiça, então o chinês dono do restaurante (posso estar inventando, ok?) foi acionado para entrevistar-se com o vendedor de drogas, a quem não conheço pessoalmente, mas que sei que gerencia um dos pontos de comércio mais movimentados e tradicionais da metrópole. Agora acionamos nosso filtro de linguagem, e com algumas adaptações – para os que se queixam da natureza das falas que publico – nasce um dos diálogos mais representativos da contemporaneidade urbana da América Latina. É o sit-down entre o dono do restaurante chinês e o dono da boca de fumo. Este último, claro, encontra-se em posição de superioridade, por assim dizer, militar e econômica, porém não é dele a primeira fala:

 

            _ [C] Represento minha comunidade, sem mandato. E em nome da paz, porque meu maior esforço não foi vir falar contigo: foi acalmar o pai da criança. Não custaria nada praquele pobre homem, enlouquecido como está, tocar fogo em dez ou vinte desses teus clientes-zumbis, durante a madrugada.

            _ [T] Não me alcançaria.

            _ [C] Decerto, mas iria arruinar teu negócio. Obrigatoriamente a chacina encheria o local de polícia e de imprensa, e o movimento cairia. Estamos em um diálogo entre dois comerciantes, certo?

            _ [T] Sim. Saiba que eu respeito muito tua comunidade.

            _ [C] Respeita, porque nós estamos em silêncio e protegemos teu negócio. Cada vez que montamos um comércio, cada vez que ocupamos uma casa com gente trabalhadora, impedimos o Estado de invadir a tiros teu estabelecimento de venda de drogas ilícitas. Somos teu cão de guarda e teu escudo humano.

            _ [T] Pode ser.

            _ [C] Eu só vim pedir a aplicação do princípio da reciprocidade, que segue vigente. Uma saída diplomática, para evitar a guerra.

            _ [T] Veja, o assalto não foi minha culpa. O garoto é um adolescente em momento de abstinência. Absolutamente incapaz de determinar-se conforme a norma.

            _ [C] Por isso estou aqui. Por ser ele incapaz, o responsável pelo ato é o senhor, autor detrás do autor. Ou melhor: quem objetivamente deve responder pelos efeitos do teu produto. Nesse sentido, exigimos um ato palpável de arrependimento da Companhia. Um recall, bastante publicizado, que mostre emenda e sinalize que todos os demais que tiverem o mesmo defeito serão imediatamente substituídos.

            _ [T] Aí está o problema, senhor. O adolescente-em-estado-de-toxicodependência imediatamente deu-se conta do risco em que se encontrava e empreendeu fuga. Ao que consta, para bem longe.

            _ [C] O que soa contraditório à tua assertiva anterior, de que o menino era incapaz de discernimento, mas não vim aqui cobrar coerência. Sigamos: qual tua proposta alternativa?

            _  [T] Digo que outro adolescente, que também comete roubos na região, esta noite terá uma grave lesão, e será abandonado na esquina, ao nascer do sol. À vista de todos.  Um outro adolescente, com as mesmas características do verdadeiro marginal. É minha proposta. “Do we have a deal”?

            _ [C] Sim. Mas note como sou obrigado a fingir não prever que o senhor instrumentalizará esse ato de justiça privada, castigando na verdade um adolescente que tem dívida com teu negócio. Sem problemas. Se os efeitos sancionatórios forem alcançados, não me importa que te deem lucro concomitantemente. Como li numa coluna de jornal jurídico no mês passado, toda justiça é um grande negócio, e isso não é um mal em si mesmo.

 

Ambos apertam as mãos, e então consigo colocar fim a esse diálogo esperpêntico, sem mesmo ter de narrar se, no dia seguinte, jazia ou não um menino, com as pernas quebradas por coturnos, exatamente no lugar do fatídico roubo. Deixa esses detalhes para lá.

 

Porque a história já terminou, como terminaram minhas reflexões. Eu só quis mesmo, tal qual um notário, registrar esse diálogo, para resgatá-lo, quem sabe algum dia, num futuro distante, quando posso tirar derivações sobre, conforme antecipei, honra, concepção de Estado e Justiça. No futuro, digo, não agora.

 

Agora o mote é outro, saber se prendemos ou soltamos o Lula. Esse, afinal, é o grande tema da justiça popular. Os demais são detalhes estatísticos.

 

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VÍCTOR GABRIEL RODRÍGUEZ

Víctor Gabriel Rodríguez

Professor Livre-Docente de Direito Penal da Universidade de São Paulo - FDRP; Membro do PROLAM/USP; Autor de “Delação Premiada: Limites Éticos ao Estado”, e do “Caso do Matemático Homicida”, entre outros.

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