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CRÔNICAS FORENSES O Delinquente Simpático

04/03/2013 por Roberto Delmanto

 

Existem diversos tipos de delinquentes: ocasionais e habituais; não agressivos e violentos, entre estes os sádicos, psicopatas e sociopatas; passionais, aparentemente inofensivos, mas, a meu ver, muito perigosos. E, ao lado deles, um tipo que poderíamos até chamar de simpático: o estelionatário.

 

Sua conduta está, desde há muito, prevista no art. 171, caput, do Código Penal: “Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento”. A pena não é das mais severas, 1 a 5 anos de reclusão, permitindo o mínimo a suspensão condicional do processo desde que preenchidos os demais requisitos legais.

 

Não causa sofrimento físico, mas moral. Além do prejuízo econômico, nos faz sentir verdadeiros idiotas quando descobrimos que fomos enganados... Do mais simples ao mais sofisticado, o estelionatário tem algumas características comuns: é muito inteligente e ardiloso, agradável e comunicativo, falante e envolvente, ganhando com incrível rapidez nossa confiança e intimidade.

 

Suas vítimas são as mais variadas, desde pessoas humildes até grandes empresários. Há algum tempo os jornais de São Paulo noticiaram a descoberta de uma sofisticadíssima quadrilha. Instalados em luxuoso e amplo conjunto na Avenida Paulista, os meliantes se diziam representantes de conhecido fundo de pensão que estaria interessado em fazer investimentos. Procuravam empresários oferecendo-lhes vultosos recursos; conquistada a confiança destes, pediam que comprassem debêntures para serem dadas em garantia dos empréstimos. Só mais tarde, não recebendo quaisquer recursos, as vítimas descobriram que os títulos adquiridos eram falsos. O prejuízo foi de milhões de reais.

 

Como criminalista, quase fui vítima de um deles. Veio ao escritório apresentando-se como filho de conhecido industrial paranaense. Jovem, elegante e extrovertido, contou que seu avião particular havia sido apreendido com uma grande quantidade de cocaína. Nada tinha a ver com o ocorrido, acreditando que seu piloto, aliciado por traficantes, tivesse agido por conta própria.

 

Procurado pela Polícia e na iminência de ter decretada sua prisão preventiva, viera para São Paulo. Buscando impressionar-me, falou das excelentes relações que ele e sua família tinham em seu Estado, chegando mesmo a dizer que havia emprestado o avião para a campanha de Roberto Requião ao governo estadual.

 

Pressentindo o “golpe”, ou seja, que por estar fora de sua cidade iria me pedir um empréstimo ou para trocar um cheque, disse-lhe que antes de aceitar a causa, a fim de tentar impedir a decretação de sua prisão cautelar, precisaria de declarações abonadoras dos empresários e políticos que mencionara, inclusive do governador eleito... Sem perder a fleugma, afirmou que as obteria facilmente e tornaria a me procurar, o que, é claro, não aconteceu. Desconfio que possa ser o mesmo moço, depois preso, que chegou a enganar o apresentador Amaury Junior em seu programa de televisão e a respeito de quem se fez um filme estrelado pelo ator Wagner Moura. Mas não pude deixar de reconhecer que ele era extremamente simpático.

Comentários

  • Nogueira Mauricio
    16/03/2014 10:43:51

    A delinquencia é um problema comportamental que leva o individuo a praticar coisas errada.

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ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas,
A Antessala da Esperança, Causos Criminais e Momentos de Paraíso - memórias de um criminalista, os três primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar.

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