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LÍNGUA PORTUGUESA Onde o "onde" não é correto...

01/08/2017 por Eduardo de Moraes Sabbag

 É muito comum, na formação de períodos sintáticos, o uso inadequado do termo “onde”. Costumo dizer que “se coloca ‘o onde’ ‘onde’ não se deve...”. Daí a utilização das palavras em trocadilho, no título deste artigo (Onde o “onde” não é correto...), que, à primeira vista, pode não soar tão bem, entretanto serve propositadamente para chamar a atenção do leitor a um problema crônico na sintaxe.

 

Como classe morfológica, “onde” pode ser um advérbio interrogativo (“Onde está o homem?”) e pronome relativo (“Esta é a cidade onde nasci.”) – o que nos interessa diretamente neste artigo –, equivalente a “em que, no qual, na qual, nos quais, nas quais” (“Esta é a cidade EM QUE / NA QUAL nasci.”). O pronome relativo retoma um termo expresso anteriormente (antecedente) e introduz uma oração dependente, adjetiva. Assim, na análise sintática, o termo “onde” será identificado como um “adjunto adverbial de lugar”. A propósito, deve referir-se sempre a lugar físico, espacial ou geográfico, sendo inadequado seu uso quando atrelado a situações diversas. Os exemplos são esclarecedores:

 

1. A estrada onde ocorreu o acidente.

 

2. O prédio onde ele trabalha.

 

 

Nas duas frases acima, nota-se que o pronome se liga a referentes que designam um lugar determinado, a saber, “a estrada” e “o prédio”. Nessa medida, houve adequação na construção dos períodos, que poderiam ser também escritos:

 

1. A estrada EM QUE / NA QUAL ocorreu o acidente.

2. O prédio EM QUE / NO QUAL ele trabalha.

 

Como recurso mnemônico, pode-se “tirar a prova” do bom uso em dois passos simples: 1º. Substitua o pronome pela expressão “o lugar em que”; e 2º. Elimine o elemento antecedente. Exemplo:

 

Situação: A estrada onde ocorreu o acidente.

1º. A estrada  [O LUGAR EM QUE] ocorreu o acidente.

2º. A estrada  [O LUGAR EM QUE] ocorreu o acidente.

Resultado: O lugar em que ocorreu o acidente.

 

 

Gonçalves Dias, na clássica “Canção do Exílio”, deixou-nos a lição no verso “Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá”. É fácil perceber que as palmeiras indicam o lugar em que o sabiá vai fazer a sua cantoria.

 

Por outro lado, existe um costume condenável de se usar a forma “onde” em excesso nos textos escritos. Costumamos denominar o fenômeno de “ondismo”, no qual se associa o pronome a situações que não indicam valor circunstancial de lugar. Observe as situações abaixo, em que o erro se torna patente:

 

1. Nos autos, foram colhidos depoimentos onde ficou evidente a culpa do réu.

 

Ora, o referente “depoimentos” indica um domínio não geográfico. A frase deve ser assim corrigida:

Nos autos, foram colhidos depoimentos EM QUE / NOS QUAIS ficou evidente a culpa do réu.

 

Daí se dizer que “onde” sempre equivalerá a “EM QUE”, mas a recíproca pode não ser verdadeira, motivo por que se têm construído, a torto e a direito, muitos períodos de forma errônea. Observe mais exemplos de incorreção:

 

2. O candidato prestou o concurso onde questões de provas foram anuladas.

Correção: O candidato prestou o concurso EM QUE / NO QUAL questões de provas foram anuladas.

 

3. Esta é a família onde há violência doméstica.

Correção: Esta é a família EM QUE / NA QUAL há violência doméstica.


           Da mesma forma, tem sido muito comum o errôneo emprego de “onde” como antecedente de “tempo”. Observe o problema:

 

1. Este é o ano onde tudo melhorará.

O antecedente “ano” designa uma referência temporal, devendo afastar o pronome “onde”. Substitua-o, assim:

Este é o ano EM QUE / NO QUAL tudo melhorará.

 

De modo semelhante, outras frases podem ilustrar a aplicação imprópria do pronome quando os referentes forem temporais:

 

2. Esta é a época onde as flores nascem.

Correção: Esta é a época EM QUE / NA QUAL as flores nascem.

 

3. O dia onde a guerra começou.

Correção: O dia EM QUE / NO QUAL a guerra começou.

 

4. O século onde tudo se explica.

Correção: O século EM QUE / NO QUAL tudo se explica.

 

Recentemente, a Fundação Getúlio Vargas elaborou importante questão no vestibular para os candidatos pretendentes ao curso de “Administração de Empresas”. No caso, o candidato teve que identificar a inadequação do uso de “onde” na frase “Uma noite onde ninguém é o que parece ser”. Com efeito, o referente “noite” não designa lugar, mas tempo. Assim, poderíamos corrigir a frase por:

 

Uma noite EM QUE / NA QUAL ninguém é o que parece ser”.

 

Por tudo isso, devemos evitar o uso indiscriminado do pronome relativo “onde”. A cautela, aqui, não será algo excessivo, mas imprescindível. Aliás, o cauteloso terá o domínio da boa aplicação do pronome relativo e... a chave dos lugares onde “o onde” é adequado. É só entrar e bem aplicar!

 

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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