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ENSAIO Por que adoro a insensibilidade

 

Os diálogos são engraçados. Ou ficam divertidos apesar do conteúdo porque ali na padaria perto do meu apartamento da Baixada as manhãs se animam pelos copeiros verborrágicos que conversam alto com a clientela enquanto servem o café. Café pra mim, para o povo simples do bairro como o empregado da borracharia da esquina de baixo. E às vezes para alguns servidores do Judiciário, que tem um prédio ali ao lado com vários gabinetes chefiados por quem jamais entra lá na padoca: café barato no coador e realidade demais à vista não lhes são combinação atrativa. Não atrai, mas ensina bastante, a exemplo do mendigo que faz ponto no farol justo em frente ao estabelecimento, e pede pra que os motoristas depositem um dinheiro na lata que leva pendurada ao pescoço, simplesmente porque não tem qualquer das mãos: seus braços terminam nos cotovelos. Esse homem será importante aqui no nosso relato só depois, porque agora me serve apenas como quadro que aprecio através da janela da padaria enquanto sinto alguém me tocar o ombro, bem na hora que o meu já amigo copeiro, um pernambucano de uns 60 anos, põe meu pão com manteiga no balcão:

 

— Tio, me paga um café e um lanche?

— Não, ninguém vai pagar nada, não. Sai andando. —  esse era o copeiro.

— Põe aí um café e pão pra ele. O negócio é não dar dinheiro — esse era eu, bancando de bom samaritano.

— Só se ele comer o pão aqui na tua frente. Pra viagem não ponho nada não. Está falado.

 

Deu pra ver na hora que a fala dura do Moisés, o pernambucano, desconcertou o pedinte invasivo. Usuário de crack, pobre: eu aprendi que pra reconhecê-los tem que olhar os dentes e os pés, pois os pés delatam também. E os do nosso personagem aqui estavam sim rachados e virados para dentro, Tio, pede pra ele embrulhar um pão de queijo, que eu como lá fora!. Indeferido por instância superior:

 

— Pãozinho de queijo recheado pro barão aí, é? — e então o copeiro Moisés me olhou a primeira vez no fundo dos olhos, pra que eu não alegasse erro: – Se esse tripa comesse tudo que tira daqui, estaria mais gordo que um porco capado.

Foi o suficiente pro sujeito sair pisando torto padaria afora, enquanto o Moisés sussurrava coisa do tipo, Você não sabe onde ia parar esse pãozinho de queijo!, que eu tive de retrucar:

— Então me conta onde iria parar o pãozinho de queijo. Você quer contar, não?

 

Foi o que me ocorreu dizer pra tentar soltar a língua do copeiro. Pra um [metido a] escritor como eu, não desvendar o fim de uma história dessas é como deixar um matemático sem o resultado da mais atraente equação. E o fim da história é presumivelmente melancólico, mesmo com o pernambucano no auge de seu humor.

 

Ele começou me jogando na cara que naquela manhã eu havia quebrado o costume de ser um dos primeiros clientes pro café, Que se você não tivesse ido no forró (?!) ontem, tinha visto que nessa conversa só hoje é o terceiro pão de queijo que o menino tira daqui, que coisa!

 

Pois é.  Pela versão do Moisés, o nóia, convicto que com aquela cara de drogado ninguém lhe dava dinheiro mesmo, encontrou um plano B que estava funcionando bem havia mais de semana: retirava comida boa e fresca da padaria e a levava para (o destinatário já acho que é meio presunção) as mulheres do traficante, que se alimentavam bem de manhã e no almoço em troca das lasquinhas de crack, Tudo na quentinha, semana passada ele saiu daqui com filé parmegiana que a japonesa de coração mole financiou, acredita? Filé mesmo, que não é bife-comercial não, batata e tudo, queimando a mão no alumínio melado de molho de tomate, pra alimentar mulher de bandido, e ele com esse esqueleto que nem urubu lambisca mais.

 

Esqueleto que nem urubu lambisca mais, convenhamos, é uma frase e tanto. Como minha mente, enquanto ele narrava, enchia-se de café e lá eu não tenho muito com que ocupá-la, fiquei imaginando que poderia escrever um mini-roteiro pra esses programas super preconceituosos que passam na tevê, uma dessas “histórias de superação” que serve pra convencer o povo de que a desigualdade de oportunidades pode ser vencida pelo esforço pessoal. Meu roteiro seria apenas a adaptação vocabular de o que saíra fluente da boca de Moisés: Fulano de Tal, usuário de crack marginalizado das ruas do bairro, durante meses compra suas pedrinhas com esmolas obtidas via sua viva retórica. Mas, com o passar dos dias, sua condição de nóia se faz fenotípica, seu aspecto lombrosiano veda obtenção de dinheiro vivo. É o momento de crise intensa, em que tem de apelar para o âmago de sua criatividade, então em um insight resolve criar uma micro-empresa de escambo constante de alimentos de boa qualidade pelas mesmas pedras que, antes, somente notas compravam. O brasileiro tem o inato talento de superar crises.

 

Aí pensei que, pra comover gente como o Moisés, a estética de meu documentário de fim de semana teria de aperfeiçoar-se muito, porque ele não se dobrava fácil. Quando me dei conta disso, claro, coloquei a teste sua sensibilidade:

 

— Pow, Moisés. Baita história triste e você conta assim, como se fosse de um menino que vende balas. A gente não vive esse vício pra poder falar...

 

Ele foi até o fim do balcão servir alguém mais e voltou, com o típico paninho de limpeza ao ombro:

 

— Na pele, não. Mas eu sei que meu irmão perdeu duas casas pra salvar filho de dívida de traficante, e hoje mora comigo de favor.

— Mora quem? Teu irmão ou o sobrinho?

— E eu lá ia dar teto pra vagabundo? Do menino nem o corpo acharam, que desapareceu faz dois anos, ainda bem. [Ele notou minha cara de semi-indignação] Digo mesmo: ainda bem. E era meu afilhado, viu?

 

Comi meu pão quieto, refletindo sobre o que me dissera. Pensava na família dele, no irmão, em como vira o sobrinho crescer e essas coisas. Esperei que ele passasse de volta, com outro café, pra me redimir:

 

— Você tem razão, Moisés. A gente tem que ver a realidade, mas nisso tudo o primeiro culpado é o traficante. Só isso que te digo, entende? E, a propósito, obrigado pelo alerta de não pagar o pão pro menino. Estaria arrependido agora. Você faz certo: pena vamos nutrir por quem não tem como trabalhar.

 

Eu apontava o pedinte do farol, aquele sem os braços, que então aparecia de novo pelo vidro do estabelecimento do português:

 

— Pena desse aí? Tem pena de mim, que acordei 4h da manhã para vir olhar pra essa tua cara bonita.

— Porque você – aí não deu pra aguentar – tem braços pra servir café, Moisés!

 

Moisés veio como num cerimonial, passou seu pano pelo balcão, lavou-o na pia bem à minha frente, torceu-o, colocou-o sobre o ombro. As mãos bem à vista. Depois me olhou bem lentamente, pela segunda vez:

 

— Você sabe o que significa, na minha terra, ter os braços cortados? Cortados bem aí, onde cortaram os desse sujeito?

(— “Cortaram”, é?)

Conta, Moisés, conta. Sei que você vai falar besteira, mas um metido a escritor não suporta uma história sem final. A insensibilidade rende contos incríveis, eu já aprendi isso. Fala, vai: quem é que corta braços?

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VÍCTOR GABRIEL RODRÍGUEZ

Víctor Gabriel Rodríguez

Professor Livre-Docente de Direito Penal da Universidade de São Paulo - FDRP; Membro do PROLAM/USP; Autor de “Delação Premiada: Limites Éticos ao Estado”, e do “Caso do Matemático Homicida”, entre outros.

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