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Reflexões Preconceito linguístico

 

Lembro-me de um professor de Química que iniciava suas aulas práticas recitando versos de Camões. Na ocasião, reconheci ter sido privilegiada a minha geração porque o nível do ensino fundamental e médio dispensava cursinho preparatório para qualquer vestibular no Brasil. E isso nada tinha a ver com posse de bens ou classe social visto que eram as escolas públicas e privadas, também do interior, que ensinavam no curso médio quatro línguas (Latim, Francês, Inglês e Espanhol). Na mesma medida, as disciplinas exatas e de artes. Tínhamos sala ambiente de música e ouvíamos o Guarani imaginando Peri oferecendo uma orquídea a Ceci.

 

Eram tempos muito especiais, admito. Ao relatar-lhes, não estou pretendendo tolamente voltar ao passado, que só pertence à História, ou retardar a evolução da humanidade. Os dias de hoje são novos e precisamos nos adaptar a eles de coração aberto e confiante. Vejo com entusiasmo, e às vezes com espanto, a mudança de conceitos e paradigmas. Respeito a todos, sigo alguns, tolero muitos.

 

Não tenho preconceitos, mesmo porque pré-conceito é conceito antecipado e, como tal, mostra falta de inteligência. É necessário conhecer antes de aceitar ou rejeitar alguma coisa. Quanto a isso, tenho muito cuidado, aplicando o que me ensinou minha vó Lili: é preciso enxergar e não somente ver. Ver todos veem; enxergar, somente alguns. enxergar é ver com cuidado, pois, ver sem cuidado, na palavra do meu pai Domingos, podemos “montar em porco” (errar), a não ser que sejamos “paus-mandados” e não pensemos com a nossa própria cabeça. Apenas não transijo com os princípios éticos e com a verdade.

 

Para provar que não sou tão velho assim, esclareço que estou bem “enturmado” com a mocidade dos tempos modernos. Procuro conhecer as novidades com os meus netos, que me dão “banho” de tecnologia e me ensinam coisas inimagináveis; consulto meus diretores e professores questionando se não estou atrasado em relação a certos posicionamentos. Entrei na era do site, blog, Twitter e Facebook. Tenho medo de ficar ultrapassado. Tudo isso, entretanto, numa linguagem coloquial porque, principalmente em nossa área de atuação, o Direito Penal a correção linguística é meio caminho andado para o sucesso. E as coisas boas que fazemos vão construindo o nosso nome ao longo da vida. Esse, sim, o nome – é a maior herança que se deixa. E já fui aconselhado pelo Guto, avô da minha bisneta Cecília, que ainda não tem 3 anos da idade: “continue estudando Damásio, Cecília, está´crescendo. Logo, logo ela estará discutindo seus coneitos.”

 

Estabelecida essa base, a de que não tenho preconceitos e quem me conhece sabe disso, vamos a um lado um tanto lúgubre dessa história que vem se desenhando nos últimos tempos. Qual? A tentativa do MEC de promover mudanças estruturais na língua portuguesa mandando às favas a Gramática. O linguajar falado nos mais diferentes rincões deste Brasil aparece como ser ensinado a todos os brasileiros, tendo como primeiro livro orientador o “Por uma vida melhor”, de Heloisa Ramo, numa coleção chamada Viver, Aprender, sob a responsabilidade do Ministério da Educação.

 

Às primeiras reações indignadas, argumentaram os responsáveis: é assim que fala o povo. De que povo se está falando? Existem diferentes povos em nosso País? Pensei que era um só. Sou povo e não quero falar errado. E o papel unificador da língua, como é que fica? Num Estado de dimensões continentais como o nosso, com diferenças naturais e culturais tão evidentes nascidas do diverso encaminhamento de sua formação histórica ao longo dos mais de quinhentos anos de existência, torna-se indispensável manter a língua nacional como elo entre brasileiros.

 

Outro aspecto preocupante é de ordem conceitual e filosófica, principalmente por sua repercussão nos campos científicos e tecnológicos. Explico-me: não se apreende um conceito, não se assimila uma ideia sem o conhecimento da língua em suas particularidades. Incapaz de compreender conceitos e ideias, como desenvolver o espírito crítico e encaminhar-se para a pesquisa? Continuaremos importando e, num futuro breve, comprando tecnologia dos países estrangeiros? Não aspiramos ombrear com as grandes potências neste mundo cada vez mais globalizado?

 

Permito-me transcrever um pequeno trecho extraído de um livro de Marques da Cruz:

 

A língua é um organismo vivo, sempre em evolução. Quando aparece em formas literárias, surge a gramática. Esta é, pois, posterior. O seu papel é o de disciplinadora, para que a linguagem não se abastarde em desleixos e impurezas. Deve, porém, ser clara. As sociedades também preexistiram à lei. A lei é posterior. Mas as sociedades têm que ser disciplinadas pela lei”.[1] (grifo meu).

Repito porque acredito nisso: “as sociedades têm que ser disciplinadas pela lei”. Ou não têm?

 

Ao tomar partido nessa celeuma, atendo ao clamor de mil vozes dos velhos professores que formaram não só a geração do Damásio de Jesus, percebo o temor de que a exaltação do poeta contivesse uma profecia que ora se busca concretizar: 

“Última flor do Lácio, inculta e bela.

És, a um tempo, esplendor e sepultura” (itálico meu)

(...............................................................)

“Em que da voz materna ouvi: Meu filho,

E em que Camões chorou, no exílio amargo,

O gênio sem ventura, o amor sem brilho.”[2]



[1] CRUZ, José Marques. SELETA: Português Prático para a 1ª. e 2ª séries do curso secundário. São Paulo.

 

[2] BILAC, Olavo Brás Martins dos Guimarães. Língua Portuguesa. Edições Melhoramentos, 1945.

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DAMÁSIO EVANGELISTA DE JESUS

Damásio Evangelista de Jesus

Advogado, Professor de Direito Penal, Presidente do Complexo Jurídico Damásio de Jesus e Diretor-Geral da Faculdade de Direito Damásio de Jesus. Autor da Editora Saraiva.

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