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ENSAIO Roteiro para exigir conduta diversa

 

            O Advogado que usa gravata Azul tem seus sessenta e poucos anos de idade, gordo. Está sentado à sua mesa de escritório, que é ampla. Sobre ela um tabuleiro de xadrez com peças movidas e um caderno, em que o advogado faz anotações com uma caneta antiga. A seu lado, um computador, que parece desligado. A janela ao fundo demonstra que o escritório é no alto andar da avenida, e que é noite; um relógio à parede marca nove horas, passadas. O advogado de gravata Cinza bate à porta e entra pela espaçosa sala. Ele é muito mais jovem e parece afoito.

           

Cinza: Desculpa, doutor. Sei que temos prazo ainda hoje, mas houve um problema...

           

Azul (interrompendo com uma risada, mas sem alçar os olhos): Não se preocupe, somos criminalistas. Aprenda isto: quando um criminalista desaparece durante a tarde, é porque foi à missa, ou doar sangue. Sempre. [Indica, com a caneta, a cadeira adiante]. Sente-se confortavelmente, porque o prazo está quase pronto. Quero apenas que você o revise e protocole, sou um elefante na internet. Agora preste atenção a minhas palavras e me ajude, porque este caderno de notas manuscritas será tua herança. Ouviu bem? A tua maior herança.

 

Cinza: Claro, doutor.

           

Azul: Eu estava aqui formulando algo que, como sempre, tem muito a ver com Direito Penal. Crime e castigo. Note... Você já se perguntou por que Deus ficou tão irado com o Pecado Original de Adão e Eva, no Gênese?

           

Cinza: O quê?

 

Azul: Sim, sempre me pareceu estranho. Porque, no Novo Testamento, Deus aparece como misericordioso, pronto a perdoar os pecados em caso de arrependimento. Não é assim? Então, acompanha: se é o mesmo Deus, por que não perdoara aquele nosso casal de antepassados, para os receber de volta no Paraíso? Por que nos baixou a este Vale de Lágrimas, sem direito a apelação?

 

Cinza: Não pensei nisso nunca, Doutor. Sinceramente, estou mais preocupado com nosso prazo. Às vezes o sistema é lento.

           

Azul: Entendi. Você quer saber por que eu estou neste tema agora, nas minhas reflexões. Pra variar, minha ex-mulher. Você a conhece bem, não? Quer dizer, pensamos que conhecemos.

 

Cinza: Sim, ela, sempre.

           

Azul: Então. Acabo de saber que quem agora advoga para ela, contra mim, é uma ex-colega de turma. Pior. Minha ex-namorada, nos longínquos tempos de graduação. Pode isso?

 

Cinza: Puxa, doutor.

           

Azul: Veja, agora são duas subjetivamente contra mim, um desgaste que poderia evitar-se. Porque, ainda que hajam passado décadas desde minha graduação, a nossa Colega, agora ex-adversa, segue com ódio deste obeso criminalista. E sei que ela, não bastasse, é a melhor das causídicas de Família.

           

Cinza: Ódio mesmo? Sendo assim, ela não deveria aceitar a causa, não?

           

Azul: Aceitou, e essa é a grande prova de que ainda está envenenada. Como dizia Ferri, o vinagre de vinho doce é mais forte. Mas o problema não é ela. O problema é, a princípio, minha bela ex. Uma mulher linda, não? Ela quem foi buscar, dentre todos os milhares de advogados desta metrópole, a única que me abomina. Melhor dito: a única que me odeia pelos análogos motivos.

           

Cinza: Entendi.

 

Azul: É esse o pecado imperdoável. O pecado para ira de Deus, o malefício do Gênese, compreende?

           

Cinza: Não.

           

Azul: É simples. O pecado de Adão e Eva não é um ato qualquer, o que se explica hoje, penalmente, pelo ‘Anderhandelnkönnen’, possibilidade de agir de outra maneira. Veja, quando a prostituta apedrejada cometeu seu pecado, sua vida era uma porcaria. Como a do ladrão crucificado. O que eles poderiam fazer, naquela vida desgraçada, senão prostituir-se ou roubar? Me diga? Me diga, pensando na tua situação: se você fosse obrigado, hoje, a varrer lixo das ruas, ou recolher esgoto de quem nem te olha na cara, quanto pensaria antes de assaltar ou traficar?

           

Cinza: Acho que muito pouco.

           

Azul: Então. [Fala lentamente, anotando no caderno] “Os demais pecados merecem perdão, porque as alternativas sobre eles, em nossa condição humana, são sempre muito pequenas. Portanto, aos olhos do Criador, não condenáveis”. Agora você, meu jovem, complete: “todos os pecados são perdoáveis... à exceção...”.

           

Cinza: Do pecado de comer a maçã?

           

Azul: Exato, virginal prodígio! Pode melhorar a linguagem, mas é isso. E por quê? Porque as alternativas ao pecado, ali, eram sempre cômodas, igualmente deliciosas. O Paraíso decerto tinha milhares de frutas, milhões de plantas, mas foi Deus dizer para não comer uma, só uma e...zás: ela mesma. [Retira de debaixo da mesa um copo com uísque, até então oculto, e lhe dá um largo gole] Agora eu lhe pergunto: qual o único diferencial da maçã, que não tinha nas outras frutas?

           

Cinza (pensativo):  Bom, acho que é o fato de Deus ter feito esse pedido, de não a comer unicamente.

           

Azul: Perfeito, portentoso aprendiz! Já estás à altura de ler minhas anotações. O pecado original é imperdoável por esta característica: ele foi escolhido como alternativa “sem que contivesse qualquer atrativo em si mesmo”. Vou até anotar. Sem qualquer atrativo, à exceção do sabor do Proibido. É a contravenção em estado puro, a desobediência destilada, o crime do Inimigo.

           

O Azul levanta-se. Toca nas pedras do tabuleiro mas não as move, bebe mais um gole do uísque. Olha direto nos olhos do jovem Cinza, que permanece sentado:

           

Azul: Então me diga, neófito discípulo. Como você defenderia alguém que comete esse tipo de pecado?

 

Cinza baixa a cabeça. Parece preocupado, um tanto trêmulo, para dar a resposta. Tarda uns instantes em silêncio, até que se manifeste:

           

Cinza: Talvez dizendo a Deus que ele mesmo criou Adão e Eva. E eles fraquejaram, eles se equivocaram por sua fragilidade. Porque, sabe, a carne é fraca.

           

Azul: Muito bem, um vício redibitório! Mas isso não é uma defesa solvente, é a desculpa de todos: “a carne é fraca”. Alegação não aceita, porque aqui não se trata de carne, aliás estamos no padrão da espiritualidade – a soberba pura de quem infringe, apenas para ferir quem os ama.

           

Cinza baixa a cabeça, chorando.

           

Azul: Meu jovem, nossa urbe vivem milhões de mulheres. Todas lindas, muitas delas livres e que também adorariam passar momentos ao lado de um advogado bem apessoado como você. E precisava...

 

Cinza: Ela me seduziu, doutor.

           

Azul: O dolo é da serpente, claro. Enquanto eu me esfolo aqui para redigir o prazo, a fim de pagar o teu salário e a pensão dos meus meninos... Com quem você escolhe passar tua tarde? Com a única mulher que eu ainda amo. Com a ímpar maçã, discreta, de todo o delicioso e suculento Paraíso.

 

Cinza (levantando-se): O senhor não é dono dela, doutor. Nem é Deus.

 

Azul: Verdade, mas hoje captei a ira do Criador. E o que é a vontade de impor a condenação eterna, em lugar de uma penitência qualquer. É só por isso, jejuno mancebo, que não lhe parto a cara ao meio. No fundo, sou um espiritualista, e esta é tua herança. Lembra que lhe falei dela?

 

[Câmara fecha, em close, no caderno aberto sobre a mesa]

           

Fim

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VÍCTOR GABRIEL RODRÍGUEZ

Víctor Gabriel Rodríguez

Professor Livre-Docente de Direito Penal da Universidade de São Paulo - FDRP; Membro do PROLAM/USP; Autor de “Delação Premiada: Limites Éticos ao Estado”, e do “Caso do Matemático Homicida”, entre outros.

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