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FILOSOFIA Sêneca - Da tranquilidade da Alma (Parte I)

03/10/2018 por Luciene Félix

 

“É preciso privar-se da agitação desregrada, à qual se entrega a maioria dos homens e da mania de se intrometer nos negócios dos outros. “ Sêneca

 

Lucius Annaeus Sêneca (4 a.C. – 65 d.C), filósofo, advogado, escritor e orador romano, dentre suas obras, legou um tratado moral onde versa sobre como obter maior qualidade de vida empregando melhor nosso bem mais precioso: o tempo.

 

Aneu Sereno, amigo de Sêneca, confidencia-lhe uma angústia que, embora nem considere assim, tão grave, tem sido perturbadora, tornando-o  nem doente nem são.

 

Ele teme que o hábito – que fortalece todas as coisas – consolide essa sua fraqueza indizível, pois tanto no mal quanto no bem, um contato prolongado nos faz tomar gosto.

 

Indicará o que sente, e pede que Sêneca nomeie sua doença. Diz amar a simplicidade e contentar-se com o suficiente: nas roupas, na alimentação e na casa, pois sabe que um projeto jeitoso torna habitável o menor canto.

 

No entanto, vacila, se deixando fascinar secretamente pelo glamour e o luxo: “(...) me ponho a duvidar sobre se todas aquelas suntuosidades não valem que as prefiramos. ”.  É sábio, diz ele, não ignorar nossas imperfeições.

 

Sereno confessa que futilidades e bagatelas têm lhe tomado tempo e que, embora advertido de que não se deve ter em vista senão as ideias e não se deve falar a não ser para exprimi-las, torna a encontrar sempre em si mesmo esta fraqueza.

 

Por fim, explicita seu anseio: “que minha alma não se ocupe de nada que a distraia, de nada que a submeta ao julgamento de outrem. ” E roga à Sêneca um remédio capaz de deter essa inconstância de alma que o agita.

 

O filósofo estoico diz ao amigo que ele aspira à ausência de inquietação, o equilíbrio da alma (“euthymia”), a tranquilidade. ”. Então se propõe a indicar como é possível à alma uma conduta tranquila e firme, sem se exaltar, nem se deprimir.

 

Ponhamos desde logo o mal em evidência, em toda a sua diversidade: “Sofrerão mais aqueles que, ornando com um nome pomposo a miséria que os consome, teimam no papel que escolheram, menos por convicção que por questão de honra”.

 

Há quem “depois de ter modificado cem vezes o plano de sua existência, acabam por ficar na posição onde os surpreende a velhice, cuja indolência rejeita as inovações. Ajunta ainda, aqueles que por preguiça, não mudam nunca, e os que vivem – não como desejam –, mas como sempre viveram”.

 

Tudo isso conduz ao descontentamento de si mesmo, por não se atreverem a tanto quanto desejam ou que tentam, em vão, realizar. ”. E ei-los presos! Não são capazes nem de mandar nem de obedecer às suas paixões; entregam-se à aflição.

 

E a angustia se agrava quando nos refugiamos no ócio, pois, uma alma apaixonada pela vida é ditada de uma necessidade natural de movimento. Atraídos pelas distrações – e há vício desde que haja excesso! –, é com amargura que nos vemos abandonados a nós mesmos.

 

Daí este aborrecimento, este melancólico desgosto de si, este redemoinho de uma alma que não se fixa em nada, esta sombria impaciência que nos causa nossa própria inércia, encerrada numa prisão, sem saída. Daí esta disposição para amaldiçoar seu próprio repouso, para lamentar-se por não ter nada a fazer e para invejar furiosamente todos os sucessos dos outros (pois nada alimenta tanto a inveja como a desgraçada preguiça).

 

Depois deste despeito pelas posses dos outros e deste desespero de não ser bem-sucedido, desanimado, começa o homem a se irritar contra a sorte, a se queixar do século, a se recolher cada vez mais em seu canto.

 

O mal do qual sofremos vem de nós mesmos: trabalho, prazer, tudo nos parece uma carga.  Contra esta melancolia, é salutar obrigar-se à atividade.

 

Para nós, afirma Sêneca, que preparamos nossas almas para as lutas da vida, o mais belo emprego que podemos fazer do nosso tempo é consagrá-lo à plena ação, sermos úteis à sociedade, sobretudo pela inteligência: “(...) exortar a juventude e, num tempo tão pobre de mestres de moral, inspirar aos corações a virtude, empolgar, deter os extraviados que se lançam à ganância e ao vício, trabalhar pelo bem público. ”

 

Estudar também é fundamental: “Se consagras ao estudo um tempo que roubas à vida social, tu não podes ser acusado nem de abandonar nem de faltar ao teu dever. (…) não mais serás uma carga para ti mesmo, nem inútil aos outros. Farás inúmeros amigos e todo homem de bem virá espontaneamente ao teu encontro, pois ninguém ignora a virtude. ”

 

Que na convivência sejamos companheiro honesto, amigo fiel, conviva moderado. Entremos em contato com o mundo inteiro e professemos que nossa pátria é o universo, a fim de oferecer à virtude o mais amplo campo de ação, roga o sábio.

 

Mesmo numa República oprimida o honesto encontra ocasião para mostrar quem ele é: “Se pertencemos a um tempo no qual a vida política é difícil de ser praticada, tornemos mais ampla a parte do ócio e do estudo (...). A melhor regra é combinar o repouso com a ação. ”

 

Devemos considerar primeiramente a nós mesmos, depois as tarefas que queremos empreender, depois os homens para os quais ou com os quais teremos de trabalhar.

 

Exageramos nossas capacidades, diz Sêneca: “Um cairá por ter presumido demais de sua eloquência; outro quer tirar de seu patrimônio mais do que este pode render; um terceiro esgota seu corpo débil em labores extenuantes. Alguns têm uma timidez incompatível com a vida de negócios, que exige uma fronte intrépida; outros não sabem dominar sua cólera ou deixam-se levar contra sua vontade a prazeres perigosos: para todos estes, o repouso é preferível à atividade. ”

 

Examinemos se nossas disposições naturais nos tornam mais aptos à ação OU aos trabalhos sedentários, pois forçar a natureza é sempre inútil e um fardo desproporcional esmaga quem o carrega.

 

Deve-se escolher com cuidado as pessoas com as quais convivemos, ver se merecem que lhes consagremos parte de nossa existência.

 

Nada agrada tanto à alma como uma boa amizade. Que felicidade a de encontrar corações aos quais se possa confiar; companheiros que acalmam nossas inquietações, cujos conselhos guiam nossas decisões, cuja alegria dissipa nossa tristeza. Evitemos os que não deixam escapar nenhuma ocasião para se lamentar.

 

Comparando-se todos os nossos outros sofrimentos e preocupações, os males que nascem do dinheiro, serão principal fonte das misérias dos homens. O dinheiro se apega tão intimamente à alma, que não se pode arrancá-lo sem dor. Se vê um ar mais alegre nas pessoas que a fortuna jamais visitou do que naquelas que ela traiu.

 

Se tomarmos previamente o gosto pela economia, a pobreza mesma, secundada por discernimento e gostos simples, pode-se transformar em riqueza. Habituemo-nos a fazer uso da utilidade dos objetos e não de sua sedução exterior. Aprendamos a esperar a riqueza mais de nós mesmos que da sorte.

 

É impossível ao homem preservar-se suficientemente contra todos os caprichos e todas as injustiças do destino. Abstenhamo-nos de espectadores. Compremos o que temos necessidade, não para ostentação, atenta Sêneca.

 

Prosseguiremos com ele, amigos, pois embora esse seu Tratado date de quase dois mil anos, como todo clássico, é atualíssimo e vale a pena conferir.

  

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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