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Ensaio Sobre a faca, a banalidade e o equilíbrio mental

Eu usava óculos escuros para falar com ela, mas não por arrogância, juro: é que a luz sobre o leito 303 da Enfermaria dava bem nos meus olhos. Bom, agora através de filtros polarizados, que não me impediam de notar que ela era mais jovem que eu e usava brincos talvez dourados:

 

            _ Você parece bem agora.

            _ Dói tudo, doutora. E não posso mover meu braço, acho que ele foi o primeiro a dormir, com este soro.

            Ela passou a mão pela cintura, sobre o jaleco. Era seu modo de, com bom humor, revelar que havia estudado meu prontuário:

            _ Não te preocupes, eu não trago uma faca.

            Eu ri.

            _ Você consegue lembrar o que houve antes da crise?

 

            “A crise”, ainda bem que ela foi direta. Eu me esforçava, agora com os olhos fechados, em repassar a cena, a mesa do meu escritório onde eu enchia minha caneta com tinta, meus dedos manchados de azul, talvez eu estivesse fazendo algum desenho sobre o papel quadriculado, ok. Sim, eu desenhava um homem sentado à mesa do pub, porque às vezes faço assim esboços antes de começar uma narrativa, o desenho de um velho senhor que me apontava a foto de seu cão, Winston, e dizia “você acredita que sinto mais falta do Winston que de meus próprios filhos?”, era tudo o que eu conseguia lembrar. Então fui sincero:

 

            _ Lembro pouco, doutora. Algo sobre um cão. E, claro, a conversa do trabalho, processos. Era o que eu fazia no momento, ouvia um consulente enquanto terminava o desenho.

            _ E aí? [fez uma pausa] Entenda, Víctor, eu não quero te fazer rememorar esse momento traumático, apenas estou testando teu nível de consciência, certo? Tente recuperar e me conte.

 

            Lembrava sim que fazia o desenho e estava com esse meu amigo. O que me conduzira ao hospital. Eu conversava com ele enquanto mexia nas minhas canetas, ou fazia o desenho, ou escrevia, daí pedi licença para olhar meu celular e ali havia milhões de mensagens, dando conta do candidato sendo esfaqueado. Achei que era mentira, Esfaqueram um candidato?, e aí o pior, eu vi o tal vídeo, daí adiante lembro pouco, lembro que voltei ao desenho, que comecei a falar sobre o absurdo que era um atentado no Brasil do século XXI, meu consulente reforçou sobre possível fake News, eu pensei “es-fake-ado, né?” mas calei, já estava nervoso olhando o papel, acho que tracei um elefante, e então comecei a falar de cães, de assassinos, do velho que sentia falta do Winston.

 

            _ Daí pra frente, doutora, eu recobro apenas o meu amigo me dizendo “Isso não é normal, precisamos de um médico”. Ah, sim, eu consegui levantar e dar a ele meu cartão do plano de saúde. Depois, só lembro aqui da recepção do hospital, e que eu tinha muita sede. Não... eu tenho muita sede. Agora. Acho que é isso.

 

            Ela se sentou ao lado do meu leito e segurou firmemente meu braço, o que não tinha soro. Eu lhe ouvia a respiração, talvez estivesse algo resfriada.

 

            _ Entenda, Víctor. O que ocorreu com você é normal até certo ponto. Quero dizer, não é raro nos dias de hoje. Notícias nos bombardeiam, essas imagens que fazem as coisas tão presentes, nossa emoção não está preparada para isso. Uma hora, dá um colapso. Você, como um intelectual (palavras dela), entende agora que precisa de tratamento?

 

            Eu não entendia, não. Porque não me sinto tão frágil, ou se me sinto penso que essa fragilidade não é patológica. Sofrimento faz parte da condição humana e as contrariedades por si mesmas não nos podem levar ao hospital. Sou sincero: pessoas passam fome no meu bairro, outros aceitam aquele emprego, chancelado pelo Poder Público, de recolher o lixo das ruas com as próprias mãos - quando nas indústrias os robôs são capazes de construir automóveis inteiros-, mães sofrem dores do parto e, neste hospital mesmo, há dezenas condenados a hemodiálise. Sem falar nas guerras, nos refugiados. E vou eu dizer que minha angústia demanda cuidados especiais? Não, não. Não entendia nada não doutora.

 

            _ Prefiro dizer, doutora, que meu cérebro deu um tilt, sabe? É, você é jovem e não lembra que os fliperamas davam tilt, mas o próprio tilt era provocado por nós, com um chute no lugar certo da máquina, só para pausar o jogo quando perdíamos. O tilt era parte normal do esporte.

 

            _ Não estou compreendendo mesmo, não. Mas você pode explicar.

 

            Era difícil explicar naquele momento, porque eu estava com sono e só conseguia pensar naquele filme do The Who, do sujeito cego que era campeão de fliperama, na minha mente eu estava com ele, ao lado do Elton John, que usava botas enormes, e eu lhe pedia para dar tilt no fliperama. Mas eu tinha que ser forte de novo, a doutora jamais poderia captar que eu estava delirando, digo, imaginando fortemente por conta daquele soro com psicotrópicos que ela me ministrava. Ela não perceberia, se eu fosse cuidadoso:

 

            _ Essa história do fliperama, doutora. Eu só quero dizer que o que houve comigo foi uma reação do cérebro apenas. Quero dizer, o colapso que eu tive, dentro do escritório, faz parte do funcionamento dos neurônios, tal como o tilt é parte do jogo. Naquele momento, quando eu abri o WhatsApp e vi a facada, fiquei pensando em todos os que justificariam essa barbárie como um ato normal, um crime qualquer. Aí eu vou pensando, doutora, que o que vivemos é um horror, que eu queria gritar a todos que estamos em tempos absurdos, eu me calo e me dá tilt. Como no filme do The Who.

 

            _ De quem?

            _ Nada, só estava lembrando. Porque gosto de imagens, e do Winston, e de elefantes e de cães.

            _ Winston?

            _ É. O cachorro do velho do pub. O ancient mariner, o velho marinheiro que gostava mais do Winston que de seu filho, lembra?

            _ Claro, ela disse, enquanto olhava o soro que pingava. Me conta uma coisa, Víctor: você tem cachorro? Um bicho de estimação?

            _ A Mercedes, respondi. Meu fox. Ela é linda, mas ela foi ali.

            _ A Mercedes foi aonde?

            _ Ela foi ali, entende? Teve que resolver umas coisas, mas já volta. Foi solucionar uns assuntos complicados na Tasmânia (onde nasceu), mas retorna em breve.

            A doutora se aproximava do soro e seu braço cruzava meus olhos, então eu não via seu rosto, apenas sua voz:

            __ Victor... devo supor que a Mercedes morreu, certo?

 

            “Não, doutora, não! A Mercedes foi ali, de acordo? Foi ali. Poxa, por que custa tanto entender?! Por que santo ninguém aceita isso, ora bolas?”, está certo eu gritava um pouco, mas não era motivo para ela chamar a enfermeira, que me olhou e saiu correndo como se visse um fantasma, e aí mexer no soro para eu apagar de vez.

 

            Compreenda, eu não deliro, só tenho um colapso, o tilt que faz parte do jogo, porque nosso cérebro é uma máquina. Uma reação natural, de quem vê um candidato a presidente ser apunhalado, como na Idade Média, enquanto todos dizem que é natural do jogo democrático, ou que a culpa é da vítima. Sorte que, quando a Mercedes voltar da Tasmânia, eu garanto, ela irá distribuir umas dentadas nas pessoas certas e pacificar tudo isto aqui. É só aguardarmos, no soro do leito 303.

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VÍCTOR GABRIEL RODRÍGUEZ

Víctor Gabriel Rodríguez

Professor Livre-Docente de Direito Penal da Universidade de São Paulo - FDRP; Membro do PROLAM/USP; Autor de “Delação Premiada: Limites Éticos ao Estado”, e do “Caso do Matemático Homicida”, entre outros.

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