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ENSAIO Sobre a morte e o jurista alcóolatra

 

            “A melhor sustentação oral da minha vida. A voz me saiu potente, os gestos faziam sentido, olhei cada um dos julgadores, com sinceridade. E ganhei, claro: ordem concedida. Mereço um licor de ervas na minha cerveja, não? O prêmio, porque não é todo dia...”

 

            _ Relativo. Na análise ex post, a partir da vitória, da ordem concedida, tens a impressão de que discursaste muito bem. E, se tivesses perdido o julgamento, tomarias teu licor igual, mas para acalmar-te. A venda deste restaurante está garantida, independentemente do veredito dos desembargadores.

 

            “Não estrague meu momento, e ouça essa. Falando em desembargador. Entro todo elegante, com minha beca, minha gravata italiana, esta aqui, novinha. Sim, estou muito mais gordo que há vinte e poucos anos, e você vai entender por que eu comento isso. E quem eu vejo, de belíssima toga, como juíza-excelência do tribunal? Marycat, minha colega de turma na Faculdade. Mais que colegas, na verdade, fomos meio namoradinhos um tempo. Eu me aproximei e disse só ‘Marycat, tudo bem? Lembra de mim?, há quanto tempo!’, essas coisas. E sabe o que ela me respondeu? ‘Não sei quem é o senhor!’. Acredita? Olha, eu não estou tão diferente assim, uns quilos a mais não me transfiguraram, eu pensei mas não disse. Até porque, ela mesma mudou muito nesses vinte anos, e não exatamente para melhor. Nem por isso está irreconhecível”.

 

            _ Ela não te conheceu?

 

            “Espera e ouve. Eu tentei não me abalar com a desfeita. Tinha que me concentrar na sustentação, que seria em poucos minutos, e Marycat não julgaria meu writ. Então, dane-se ela. Naquele momento, digo. Ela se sentou com sua linda toga, visivelmente fugindo da minha mirada. Simulou ler algo em seu notebook, e eu saí para meus últimos preparativos.”

 

             _ Foste ao banheiro, ou a algum canto do palácio, tomar um gole do uísque que trazes nessa garrafinha, sob teu paletó.

 

            “Pra aveludar esta voz que soou tão melíflua aos julgadores, e que conseguiu a liberdade de um cidadão. Quer ouvir a história da Marycat ou não?”.

 

            _ Só tento introduzir um assunto. Mas tu não o queres.

 

            “Porque você quer repetir a mesma ladainha de sempre, insuportável e monocórdica, enquanto eu tenho um relato inaudito. Quando os desembargadores proclamam a concessão da ordem, eu, claro, fico muito feliz e vou saindo, recebendo os tradicionais cumprimentos de nossos colegas ali presentes. E quem se levanta da mesa correndo pra vir falar comigo?”

 

            _ Doutora Marycat. Que te interrompe para dizer que lembra de ti, enquanto tua real prioridade era sair voando ao primeiro bar e tomar uma cerveja.

 

            “Doutora Marycat, só até aí você acertou. Rosto pálido, me olhava como se eu fosse uma assombração, e sabe o que me disse? Presta atenção. Ela nem se importa se advogados ou seus pares escutavam, me agarra pelos ombros e fala: ‘Eu te reconheci, claro, mas fiquei assustada. Porque acreditava que você estava morto, há anos!’ Entendeu? Eu, morto.”

 

            _ De cirrose?

 

            “Eu fiquei com esse mesmo espanto que você tem, mas dissimula. ‘Morto, eu? Com todos esses quilos que ganhei, há muito mais de mim neste mundo!’. Eu não perco a piada. E ela confirmou, ‘Faz uns dez anos, o pessoal da nossa turma disse que você havia morrido em um acidente na estrada. Um acidente estranho, que o carro havia incendiado, talvez fosse um ajuste de contas. Uma morte violenta, enfim. Eu acreditei. E agora, no meu primeiro dia de Tribunal, você aparece assim... Achei que eu alucinava, desculpe’. Eu não sabia se ria, se pensava que ela estava louca. Mas ela falava a verdade. Quanto mais eu penso, mais chego à conclusão que esse fato – essa história maluca – é o único que explica o comportamento inicial dela. Ou seja: inventaram que eu morri. Pode?”

 

            _ Preciso te falar uma coisa...

 

            “Fico dando voltas na minha cabeça, e não consigo imaginar qualquer motivo plausível que levasse meus colegas de turma a criarem o boato de minha morte. Para um criminalista como eu, desvelar esse conto mórbido agora é uma missão. Quem inventou isso? Por quê?”

 

            _ Vais beber outra? Tens certeza?

 

            “Um vinho, agora. E você vai me acompanhar. (Duas taças, por favor). E me ajude a compreender o que houve, dez ou quinze anos atrás, na gênese dessa falácia. Isso: sou vítima de uma mentira e tenho direito a recompor minha verdade histórica”.

 

            _ Eu quero te contar que tu fantasias. Esse episódio não deve ter ocorrido dessa maneira, provavelmente a tal Mary apenas tenha dito algo como “Eu achei que você estava morto”, como figura de linguagem apenas. Para expressar que fazia anos que não tinha notícias de ti, e pra não declarar que não te reconhecera prontamente porque, como todos nós, estás velho e gordo.

 

            “Ela também está velha. E só não digo que está gorda porque seria deselegante”.

 

            _ Estamos todos, mas isso não é motivo para que passes todo o dia alcoolizado, nem que inventes histórias a fim de, com tua narrativa eloquente, disfarçares o quanto bebes.

 

            “Pois eu agora me ofendo. Não sou um mentiroso, porque dessas passagens absurdas da vida, esta de hoje foi a mais leve. Os anos voam e assim vejo tanta coisa, que não me espanto se você disser que eu estou mesmo morto e jamais me dera conta, como o protagonista daquele filme. Eu não inventaria uma mentira assim, ao menos sem cobrar honorários que valham o esforço.”

 

            _ Não estás morto. Mas se segues no ritmo, teu fígado entra em colapso em um par de anos.

 

            “E, se paro, minha mente entra em colapso em um par de horas. O que é pior? Só quando bebo meus pensamentos acalmam, e se assentam uns sobre outros como se acolchoados, sem atrito. Ou você acha que é fácil abrir a voz em defesa de um narcotraficante, que é um facínora (que escraviza suas mulheres e mata a seus usuários), e que ao mesmo tempo é vítima de todos nós, já que na verdade temos todos o inconsciente desejo de que o degolem no cárcere? E, depois, ver juízes, não tão sóbrios como você nem tão bêbados quanto eu, lerem sentenças prontas, simulando ser de sua própria autoria? Isso arde na alma.

 

            _ Tua mente parece saudável. Quer dizer, tua mente é brilhante, porque é incrível como ela logra artifícios para descolar-se de ti mesmo, e então encontra argumentos para advogar em causa própria. Ela formula a defesa de teu auto-envenenamento, com uma contundente justificante de estado de necessidade. Mas eu, com a devida vênia, não caio nessa retórica. Tuas palavras te curam da culpa de agora, mas não da ressaca de amanhã. Escuta: se terminas essa garrafa do vinho (porque eu não vou sequer prová-lo), provavelmente acordarás em um hospital. De novo. Hoje estás especialmente alcoolizado.

 

            “Eu sou sim um alcoólatra, mas não sou o maior viciado. Viciado é o mundo. Viciada é a justiça. E sabe o que eu descobri? Que ela ainda é apaixonada por mim!”.

 

            _ A justiça?

 

            “A Marycat, pow! Ela seguia apaixonada por anos, então alguém inventou minha morte. Alguma amiga, que notava como a pobre sofria, pra que ela me esquecesse de uma vez. E deu certo, porque...”

 

            _ Termina teu vinho. Ciao.

 

 

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VÍCTOR GABRIEL RODRÍGUEZ

Víctor Gabriel Rodríguez

Professor Doutor de Direito Penal da Universidade de São Paulo - FDRP; Membro da União Brasileira de Escritores, autor de Fundamentos do Direito Penal Brasileiro, pela Editora Atlas, e do livro Caso do Matemático Homicida, pela Editora Almedina. E-mail: victorgabrielr@hotmail.com

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