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ENSAIO Sobre Drogas, Corrupção e Consciência

 

Roteiro para curta-metragem:

Centro de São Paulo. Começa a escurecer na rua em que se vendem drogas. O homem de meia idade, com paletó de couro MARROM, baixa a rua. Vira a esquina, e é surpreendido por dois policiais fardados, que fazem ronda a pé. Nota-se que MARROM, apesar de sentir a pistola quase colada ao rosto, está calmo. Breves palavras, que não se escutam, e os policiais baixam as armas. Agora são eles que se afastam, em direção ao centro da boca de fumo. MARROM pára na esquina, a observar os policiais caminhando. Eles andam alguns passos, esperam um pouco. Até abordarem um jovem, de camisa de flanela xadrez, que virava a esquina. MARROM atravessa a rua, em direção ao foco da câmara. Agora nota-se que a câmera simulava o ponto de vista do homem AZUL, um rapaz negro de seus trinta anos, de jeans e moletom vermelho, que mirava tudo desde a outra esquina. Filma-se agora o diálogo entre os dois, que não se conhecem. MARROM aproxima-se de braços alçados, sinalizando não oferecer perigo.

Marrom: Eu só disse pra eles que moro no prédio ali. Não sou polícia, não. Sou advogado.

Azul: Bom ter falado. Já não estava gostando. Mas a polícia deixa mesmo em paz quem mora no teu castelo. Vocês passam, a gente não se mete, eles não se metem. [Como cortando o diálogo]: A gente não tem que trocar idéia, nós dois.

MARROM tira o paletó de couro e o põe na calçada. Senta-se sobre ele, com as costas apoiadas ao muro, quase aos pés do AZUL. Observa os policiais, que ainda retêm o jovem de xadrez, e fala:

Marrom: Senta aí, Disciplina! E me conta, vocês chamam meu prédio de “Castelo”? [apontando aos policiais]: Estão liberando o menino. Sem uma moeda no bolso.

Azul: É.

Marrom: Não quero te encher com minha conversa, só observar. Porque eu escrevo, sabe? Não, não sabe. Olha como é interessante: o polícia toma o dinheiro do menino, que na verdade era pro tráfico. Pro policial não é um roubo, é uma apreensão do dinheiro que alimentaria o crime, a bandidagem. Ele só não declara, e não se sente bandido.

Azul: [Dobrando o joelho devagar, até sentar-se] Declara o quê, irmão?

Marrom: Não repassa o dinheiro pra Polícia, pro Estado. Pegam pra eles. Mas, no fundo, na cabeça deles, não são corruptos. Ladrões, digo. Eles apreendem o dinheiro do tráfico, assim diminuem o Fluxo. E a vida segue. [Gesticulando, com o indicador na testa] É natural do ser humano, eles aliviam a auto-reprovação. A consciência dói, acusa, entende?

Azul: Eu tenho que ficar com cinquenta reais no bolso. Quando não tenho, é canseira. Se tenho, vão logo embora. Ali na frente, no Fluxo mesmo, é diferente: quatrocentos no bolso por vez. De manhã e de noite. Se não, a coisa esquenta. Alopram os meninos. Baixa viatura, pegam mercadoria. Sem idéia.

Marrom [rindo] Eu sabia disso, só não sabia que estava tão caro. Mas eu me interesso mesmo pelo processo, pela consciência. Nenhum diálogo, nenhum acerto expresso. E com isso a mente de todos funciona bem. Como se tudo fosse condição da natureza.

O homem Azul olha bem o interlocutor. Em close, a câmera mostra seu rosto desconfiado, sua dúvida, até que ele relaxa, mas ainda cauteloso. O homem Marrom tira do bolso do paletó, sobre o qual estava sentado, uma caixinha prateada, que traz cigarros, e oferece ao Azul. Ele aceita e começa a fumar. Tudo muito lento. Quando a fumaça sobe, ele fala:

Azul: Essas coisas de culpa, não é?

Marrom: Consciência, é. Diz, você tem algo pra contar. Fuma mais. Olha, a polícia tá subindo a rua. Voltam mais tarde.

Azul: Minha mãe era da igreja. Eu era da igreja, mas sem muita crença. Sou dessas coisas de Deus, não. Minha mãe, fanática. Mas eu ia com ela, porque no culto tinha muita mulher bonita. Conheci uma dessas, menina. Engravidei a moça, daí tive que trazer ela pra morar comigo.

Marrom: Justo. Você tinha que cuidar do teu filho.

Azul: Filha. Quando nasceu, a coisa ficou ruim de vez. Minha mulher não trabalhava, minha mãe e ela não saíam da igreja, e eu tendo que botar comida na casa todo dia. Comida, leite, fralda, talco.

Marrom: Você fala bem. É bom contar essas coisas. Alivia a gente.

Azul: Suave. Aí era só humilhação pra mim. Humilhação, humilhação. Porque eu não tinha grana, atendente de padaria. E me mandaram embora, porque eu tava dormindo no serviço, e aí foi pior, as duas me xingando, minha mulher queria celular. Disse que o pastor mandou ela ter celular, pode?

Marrom: São os dias de hoje.

Azul: Humilhação, humilhação. E ofende, e fala, e compara com o vizinho, com o ex-namorado. Com meu irmão, que sumiu. Foi aí que entrei no movimento do pó. Mas entrei de vez, porque tenho jeito pra vendedor, peguei uma moto e distribuía muito, dia e noite, pedra e tudo. Muita pedra, dentro do tanque. E na madrugada ainda fazia o meu por conta. Enchi minha casa de grana.

Marrom: Então parou a humilhação.

Azul: Isso. Minha mulher com o celular dela ficou um doce, minha mãe quando ganhou TV disse que me amava, só minha filha ficou igual, de bonita. Lindona. E tinha uma gaveta na cozinha, que eu enchia de dinheiro. Que minha mãe pegava, pra igreja.

Marrom: Claro. Entendi agora por que você me conta essa história exatamente. Sua família usava o dinheiro, que sabia que era do tráfico, e não reprovava tua atividade, né?

Azul: Em nome de Jesus. [Ri] Não falavam nada. Mas sabia que não era dinheiro da chapeiro de padaria, né? Juntei um saco de grana que escondi no quintal. Aprendi: cano de pvc, plástico, entulho e pode enterrar. Dinheiro e arma cara.

Marrom: Pro futuro.

Azul: E aí eu vou preso e quem aparece pra me visitar? Ninguém. Quase ninguém. Porque no CDP vieram dois: primeiro, meu irmão, que eu não via fazia mais de dez anos. Voltou pra dizer que minha mãe chorava de vergonha de mim, que minha mulher não ia vir me ver nem trazer a menina. Que eu sou um bandido, que eu tenho que saber meu lugar. [Tosse] E adivinha quem mais...

Marrom: Imagino.

Azul: O Pastor! De bíblia e gravata, pra falar que se envergonhavam de mim.. Mesmo papo: que minha mãe chorava e orava, porque tinha me criado para ser um trabalhador. [Acende outro cigarro. No close, nota-se que em seus olhos formam lágrimas, que ele retém]. Eu só disse pro sujeito que ele não viesse me reconverter, não. Porque minha mãe me humilhava, mesmo, quando eu era trabalhador, quando eu virei bandido era tudo só felicidade. Inclusive pra Igreja, que levou dízimo de o que eu meti em casa.

Marrom: E ele fingiu que não escutou essa parte.

Azul: Malandro demais, falou que minha filha passava fome, e eu na grade. Pode? Foi embora, e me aparece na semana seguinte, depois de sete dias que eu só pensava na minha lindona. Covardia, né? [Chora, cabisbaixo]  Fiz a bobagem: falei da grana no quintal.

Marrom: Affe!

Azul: Aí sumiu todo mundo de vez. Mãe, mulher, filha, pastor, dinheiro, arma, tudo pra casa do diabo.

Marrom: [Sorrindo]. É, acho que o pastor pegou sua grana.

Azul: E minha mulher, pelo que sei. Se é que já não está de olho na minha filha. [faz uma pausa, baixando o olhar] E quem é o bandido da história? [Entreolham-se, em close] O bandido tá aqui, o Azul, que tem que andar com salvo-conduto no bolso.

Marrom: Salvo conduto e cinquenta reais.

Azul: É. E os cinquenta reais. Pra isso, pra aliviar a culpa dos outros. Cuidar da... Como você falou mesmo?

Marrom: Consciência. Eu disse “consciência”.

Marrom acende um cigarro, lentamente. Duas meninas, de menos de nove anos, passam brincando com uma corda. A cena finaliza, em fade, ao som de um rap qualquer.

[Fim]

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VÍCTOR GABRIEL RODRÍGUEZ

Víctor Gabriel Rodríguez

Professor Doutor de Direito Penal da Universidade de São Paulo - FDRP; Membro da União Brasileira de Escritores, autor de Fundamentos do Direito Penal Brasileiro, pela Editora Atlas, e do livro Caso do Matemático Homicida, pela Editora Almedina. E-mail: victorgabrielr@hotmail.com

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