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CRÔNICAS FORENSES Très Doucement

03/10/2014 por Roberto Delmanto

 

Em rumoroso inquérito, a polícia contestava a autenticidade de importante documento datilografado em uma antiga máquina de escrever e assinado por um rico empresário, falecido após longa enfermidade: não apenas a assinatura seria falsa como também a máquina só teria sido fabricada após a data em que o documento fora assinado. Tratar-se-ia, assim, de uma dupla falsidade.

 

Na defesa do herdeiro que apresentara o documento, buscando provar sua autenticidade, mas sabendo da influência política de outros parentes que o contestavam, preferi consultar um perito estrangeiro. Minha escolha recaiu sobre um argentino, jovem mas extremamente competente. Após examinar o documento, ele concluiu pela sua idoneidade: a assinatura do falecido era verdadeira, somente tendo sofrido as naturais alterações decorrentes da doença; quanto à máquina de datilografia - cuja marca, modelo e série logrou identificar - tinha sido fabricada em época anterior à data do documento. Forneceu-me, em seguida, um alentado parecer.

 

Para reforçar sua conclusão, resolvi consultar um perito belga muito renomado. Ele também concluiu que a assinatura do falecido era
autêntica e que a máquina já era produzida antes da data do documento. Discordou, apenas, de um pormenor: embora a marca e o modelo da máquina fossem os apontados pelo argentino, a série de fabricação era outra, que indicou.

 

Como esse dado não invalidava o primeiro parecer, antes de solicitar ao belga um laudo pericial, apressei-me em comunicar ao argentino a opinião do europeu que igualmente considerava o documento idôneo. Ele, contudo, mostrou-se preocupado com a divergência, achando que poderia prejudicar sua reputação e pedindo-me que solicitasse ao belga para não enfatizá-la em demasia. Como não domino perfeitamente o francês, pedi à minha então secretária, que conhecia bem o idioma, para transmitir para o europeu, por telefone, a solicitação do hermano.

 

Foi aí que ela, com a sutileza própria das mulheres, disse ao belga: “Savez-vous, monsieur, le expert argentin est très jeune. Il est comme une vierge: el faut faire très doucement” (“Sabe, senhor, o perito argentino é muito jovem. Ele é como uma virgem: é preciso fazer bem docemente”). O europeu riu da imagem da secretária, compreendendo a preocupação do colega. E, em seu parecer, apesar de manter a divergência com o argentino, a manifestou com elegância e discrição, ou seja “très doucement”...

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ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas, O Gesto e o Quadro, A Antessala da Esperança, Momentos de Paraíso-memórias de um criminalista e Causos Criminais, os quatro primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar”

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