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Entrevista Concursos Minha Trajetória nos concursos - Delegada de Polícia

02/01/2018 por Aline Martins Gonçalves

 

Em que momento decidiu se enveredar pelos concursos públicos?

Eu sou de Santos-SP, e em 1997 me mudei para São Paulo, capital, para iniciar a Faculdade de Direito. Com isso, comecei a procurar emprego e então meu pai me deu a dica de prestar concursos públicos. Estava aberta a inscrição do concurso de Agente de Telecomunicações Policial da Polícia Civil de São Paulo. Eu mal sabia o que era Polícia Civil naquela época, mas resolvi prestar, sendo aprovada naquele mesmo ano. Aquele primeiro concurso para mim não teve muita dificuldade, pois eu já tinha me preparado para o vestibular, e as matérias do concurso eram similares, além do que ser formada em datilografia me auxiliou na segunda fase. Finalizei a Faculdade de Direito trabalhando como Agente de Telecomunicações Policial. Era um trabalho tranquilo, apenas era encarregada das comunicações policiais através de rádio, telefone e mensagens eletrônicas. Já como eu trabalhava sob regime de plantão, dispunha de tempo livre para o estudo e aproveitei essa oportunidade. Eu cheguei a exercer atividades paralelas para a complementação da renda, mas o tempo encurta, então, no último ano de Faculdade resolvi apenas estudar para o Exame de Ordem, exame este que fui aprovada no ano seguinte. Em 2002, já estando 5 (cinco) anos na Polícia Civil de São Paulo, tomei gosto pela profissão de Delegado de Polícia, e resolvi estudar para ser aprovada no concurso.

 

Quando iniciou seu preparo? Qual metodologia usou?

Em 2002, quando resolvi que eu gostaria de ser Delegada de Polícia, parei com todas as atividades extras que eu tinha, não viajei, não saia para festas ou eventos do gênero, apenas trabalhava nos plantões e estudava. Eu trocava meus plantões diurnos pelos noturnos, que eram mais tranquilos e eu conseguia estudar .  Nas horas vagas era só estudo. Além disso, eu trabalhava no cursinho aos domingos em troca de bolsa de estudos, já que com o meu salário não conseguia arcar com os custos, e só comparecia nas aulas que me interessavam para o concurso de Delegado de Polícia. Eu sempre trabalhei com a metodologia de pegar o edital desejado e montar minha própria apostila. Então fiz isso com o edital de Delegado, no computador pegava os tópicos dos editais e inseria as leis secas e a doutrina. Hoje em dia, eu inseriria também súmulas dos Tribunais Superiores e os principais julgamentos, principalmente os com repercussão geral. Acho um método demorado até finalizar a apostila, mas muito prático para estudar depois. Encadernei tudo e fui fundo nos estudos, fazendo simulados inclusive, e quando havia qualquer informação extra, anotada à caneta na apostila, para ela sempre estar o mais completa possível. Nunca usei livros doutrinários, usava bastante lei seca e sinopses jurídicas.

 

Quanto tempo demorou para ser aprovada no primeiro concurso?

O de Agente de Telecomunicações foram alguns meses, acho que uns seis desde a inscrição até a posse. Já o de Delegado de Polícia me preparei um ano inteiro, estudando todos os dias. Passei no DP 01\2003.

 

Como traçou seus focos em relação às carreiras?  

Por eu já estar trabalhando na Polícia Civil, fui pegando gosto pela profissão de Delegado de Polícia. Eu gostava de acompanhar as investigações e os esclarecimentos dos crimes. Era muito gratificante. Naquela época não imaginava que o Delgado de Polícia fazia muito mais que presidir inquéritos policiais.

 

A senhora sofreu alguma cobrança de familiares e amigos pelo resultado pretendido?

 Minha família sempre me apoiou muito e em tudo. Eu já era Agente de Telecomunicações Policial e fui aprovada de Delegada de Polícia, e, na mesma época, meu irmão mais velho era Escrevente Técnico do Judiciário e foi  aprovado para o concurso de Juiz de Direito. Foi uma felicidade grande para ambos.

 

Depois de aprovada, como foi sua rotina de Delegada de Polícia recém empossado?

Foi difícil (rs). Naquela época não tinha escolha de vagas conforme a classificação geral na Academia de Polícia, como tem hoje em dia. Você poderia ser mandada para qualquer lugar. E, mesmo morando na Zona Oeste de São Paulo, iniciei o exercício na Zona Leste, na Cidade Tiradentes, quase 60 km da minha casa. Estávamos em 3 (três) equipes de plantão, as vezes 4 (quatro) e eu trabalhava dia e noite, meu salário era baixo e meu gasto era excessivo. Tinha dias que não dispunha de dinheiro nem para o almoço, levava um sanduíche e uma fruta. Além disso, os plantões noturnos e os finais de semana eram tensos, porque o local era muito afastado e dispunha de pouca segurança, então eu e a equipe (um escrivão e dois investigadores) tínhamos que ficar em alerta todo segundo. Ao mesmo tempo, ocorriam bastantes crimes graves na região, as ocorrências eram pesadas, latrocínios, homicídios e crimes contra a dignidade sexual. A Polícia Militar nos auxiliava bastante nos locais de crime. Mas foi a melhor forma de eu aprender o trabalho policial.

 

Quais as principais funções de um Delegada de Polícia?

Hoje me dia, com mais de 20 (vinte) anos na Polícia Civil, consigo ver claramente o quanto o Delegado de Polícia exerce funções diferenciadas. Num primeiro atendimento da ocorrência, onde coleta dados, testemunhas e direciona as investigações. Esse primeiro momento é muito importante para o esclarecimento do caso. Presidir inquérito policial é uma grande responsabilidade, tanto com a vítima, quanto com a sociedade e na própria função da Justiça. Há delegacias especializadas em homicídio, em narcóticos e em patrimônio. Mas a grande maioria é uma clínica geral mesmo. Mas o Delegado de Polícia também exerce outras funções. Quando trabalhei como Delegada Assistente da 1a. Delegacia Seccional de São Paulo – Centro, exercia o trabalho de inteligência policial, que é simplesmente apaixonante. Também exercia a função da Unidade Gestora Executora, que trabalha com licitações e contratos administrativos. Fora isso, há a função administrativa, de controle de pessoal e de cargas (armas, coletes, algemas, etc). 

 

Qual foi o momento mais engraçado ou curioso da sua carreira até agora?

Engraçado não sei. Sempre levei meu trabalho muito a sério, pois envolve a vida das pessoas e tenho que ter muita responsabilidade com elas. Curioso talvez entender que o Delegado de Polícia sempre está aprendendo. Todos os dias tem ocorrências diferentes, muitas delas inusitadas. No começo de carreira, lembro que um amigo Delegado de Polícia me ligou dizendo que apresentaram um gavião morto lá no plantão policial dele, e o que ele deveria fazer. Também já passei por isso, na própria Delegacia da Cidade Tiradentes me apresentaram cobras apreendidas que um homem mantinha em cativeiro. Ele chorava na Delegacia, perguntando se iriam cuidar bem das cobras dele. Além disso, percebi que mesmo já tendo bastante tempo de carreira, podemos sim ser enganados. Em 2010, na Delegacia do Sacomã, uma jovem de 15 anos acusava o padrasto de estupro. A história dela parecia ser real e todas as testemunhas de certa forma corroboravam as informações. Ela chorava de soluçar na minha frente e contava com detalhes tudo o que supostamente tinha passado por anos. Após a decretação da prisão preventiva, já no curso da instrução processual, a psicóloga do Forum veio me informar que a suposta vítima estava mentindo, apenas porque não gostava do padrasto.  Essas histórias nos fazem perceber que não há limite de aprendizado, ser Delegado de Polícia é aprender todos os dias.

 

E o mais triste?

O mais triste eu lembro, em 2006 em Perus. Um caso de estupro de vulnerável seguida de morte. Uma menina de 4 (quatro) anos foi estuprada pelo tio, e depois de morta, ele deixou o corpo dela, com os ossos quebrados, na estação de trem de lá. O tio tinha chegado da Bahia e estava desempregado, então a irmã dele, mãe da menina, saiu para trabalhar e deixou a filha com o irmão, que acabou fazendo o que fez e fugindo. Outro caso que me chocou bastante também ocorreu na Cidade Tiradentes, a avó tinha a guarda de um neto de 8 (oito) anos, e aos finais de semana a mãe do menino tinha direito de permanecer com ele. Só que a mãe do menino segurava o filho para o padrasto estupra-lo, já tinha até laudo médico das lesões. Era muito triste. Crimes sexuais contra crianças com certeza são os mais tristes para mim. Fora as ocorrências de suicídio que para mim também são sempre tristes.

 

Quando um acadêmico ou bacharel toma a decisão de ingressar numa carreira pública, qual o primeiro passo a ser dado?

Ser realista. Tanto na questão da quantidade de tempo que terá que estudar, quanto no perfil que deseja profissionalmente. Vejo muitos alunos meus do cursinho com o discurso que nasceu para ser Delegado pois gosta de violência. Ser Delegado é justamente o contrário disso. Delegado deve ser pacificador, firme e sério nas conduções das investigações. Se for passional, arbitrário ou abusivo não irá exercer bem a profissão. Toda a história contém várias versões e muitas vezes, nenhuma delas apresentadas ao Delegado é a verdade. Então, primeiro o concursando deverá saber qual perfil profissional deseja seguir, para depois estudar a fundo o Direito para ser aprovado no concurso e aplicar todo esse conhecimento na prática.

O que deve esperar o concursando na hora de optar pela carreira na Polícia Judiciária?

Como eu já disse acima, o concursando deve ser realista. Saber que o Delegado de Polícia exerce uma função importantíssima na vida das pessoas, ele que estará à disposição dia e noite em favor da sociedade, ele que dará o primeiro atendimento em todas as ocorrências e colherá todas as provas iniciais da investigação. O Delegado de Polícia também é o primeiro garantidor dos direitos fundamentais das pessoas. Ele que irá analisar a legalidade das prisões inicialmente, e relaxá-las ou ratifica-las. O Delegado de Polícia também atua muito forte no campo social, direcionando e auxiliando as pessoas em seu dia a dia. É uma profissão muito aventureira, instigante e gratificante.

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ALINE MARTINS GONÇALVES

Aline Martins Gonçalves

Delegada de Polícia do Estado de São Paulo, Assessora de Gabinete da SSP-SP, Professora da ACADEPOL-SP, Especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública pela ACADEPOL-SP, pós graduada em Direitos Fundamentais pela FAAP e Proteção de Gênero pela Escola Paulista da Magistratura. Professora do Curso DEPOL - preparatório para Delegado de Polícia e do Grupo Orientado de Estudos - preparatório para carreiras policiais.

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