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ENTREVISTA CONCURSOS Minha Trajetória nos concursos - Delegado de Polícia

03/04/2017 por Emilio Pernambuco.

 

Em que momento decidiu se enveredar pelos concursos públicos?

Creio que por volta do terceiro ano do curso de direito. Já me atraia pela carreira de Delegado de Polícia, contudo ainda não havia fechado questão. Tanto que fui estagiário do Ministério público durante o quarto e o quinto ano da faculdade, como forma de adquirir familiaridade com a prática da vida jurídica e firmar a convicção da carreira pública. 

 

Quando iniciou seu preparo? Qual metodologia usou?

O estudo focado mesmo nos concursos públicos veio após o término da faculdade. Cursei curso preparatório para ingresso em concursos públicos, que eram, à época, somente presenciais, e os quais, na minha visão, são muito úteis para direcionar os estudos e auxiliar na disciplina exigida do candidato, bem como indicar temas que sejam de maior incidência e tendências. Contudo, entendo plenamente possível ao candidato, que, pelas mais variadas razões, não possa se valer dessas modalidades de cursos, alcançar êxito na aprovação nos concursos públicos, talvez se lhe exigindo um tempo maior de preparação ou prazo mais estendido até o ingresso na carreira escolhida. Procurava dividir o dia de estudo em ao menos duas disciplinas do edital, para render mais e permanecer não perder o foco em um só tema. Costumava reservar ao menos o sábado ou o domingo para o descanso, sem estudos neste dia, com o fim de dar a mente o tempo de recuperação e fixação de pontos estudados. 

 

Quanto tempo demorou para ser aprovado no primeiro concurso?

Foram quase três anos de preparação até o êxito ser alcançado. Mas esse tempo é bastante variável, dependendo de uma série de fatores, dentre os quais tempo disponível para estudos, se o candidato trabalha concomitantemente ao preparo, estado civil, entre outros.

 

Como traçou seus focos em relação às carreiras?  

É preciso buscar, antes de optar por determinada carreira, conhecer o máximo possível da rotina de trabalho e características que a envolvem, não somente a definição legal ou protocolar dela. Conversar com profissionais que a exerçam e não focar somente em questões salariais ou de aparente “status” social que porventura esta ou aquela carreira possa apresentar.

 

O senhor sofreu alguma cobrança de familiares e amigos pelo resultado pretendido?

Creio que a cobrança maior venha de si próprio e disso decorre eventualmente até  a interpretação de  algum questionamento de amigo ou familiar como cobrança, quando por vezes, na verdade, se tratava de interesse legítimo em saber de sua situação ou curiosidade natural em entender o “mundo dos concurseiros”. A ansiedade maior é do próprio candidato, que quer logo se colocar no mercado de trabalho e exercer a carreira escolhida.

 

Depois de aprovado, como foi sua rotina de Delegado de Polícia recém empossado?

Embora tivesse uma noção bastante consistente da função, nada como a prática do dia a dia. Minha primeira designação foi o 44º Distrito Policial da Capital, no bairro de Guaianazes. Trata-se de bairro, com bastante carência, no extremo leste da cidade, com todos os problemas característicos de regiões com populações menos favorecidas. Agregado a isso, os distritos da capital nessa época ainda eram dotados de carceragens, com inúmeros presos da Justiça em espaço quase sempre pequeno, em numero maior que o de vagas. Um fator que realmente traziam muitas agruras e apreensões, mas que hoje já não mais existem, ao menos, nos distritos da capital. O início era eivado de bastante insegurança, comum a todo começo, mormente pela característica da necessidade de tomada de decisões em pouquíssimo tempo, ainda no calor dos fatos, como se diz na expressão forte, contudo, bastante simbólica, “quando o sangue ainda escorre”. Era uma rotina bastante movimentada, com plantões diurnos e noturnos, todos de no mínimo doze horas, quando não se faziam turnos de vinte e quatro horas.

 

Quais as principais funções de um Delegado de Polícia?

Estão sintetizadas na Constituição feral, em seu artigo 144, ou seja, é o dirigente da Polícia Civil na atividade de polícia judiciária, na apuração de autoria e materialidade de delitos, não se exaurindo neste conceito, contudo. È o primeiro operador do direito que toma contato com situações, em princípio, relacionadas a um delito definido em lei. Faz a adequação de fatos sociais aos tipos penais, valendo-se de seu convencimento técnico-jurídico, decisão esta tomada ainda no calor dos fatos, com todos os personagens presentes, nas vinte e quatro horas do dia. Acrescente-se, porém, que muitas das vezes o Delegado de Polícia analisa e “pacifica” conflitos pessoais, sociais e familiares, que embora possam não encontrar guarida em tipos penais, afetam a vida da comunidade, prevenindo-se, por vezes, crimes em sua acepção ampla. Dirige investigações de infrações penais, materializadas no Inquérito Policial, buscando sempre a verdade real de fatos.  

 

Qual foi o momento mais engraçado ou curioso da sua carreira até agora?

Como dito, as delegacias, por seu caráter diuturno, recebem as mais variadas pessoas e os mais variados assuntos, não só criminais. Por sua característica democrática, recebe a todos, e ali, por vezes, adentram pessoas que acabaram por exagerar na bebida e entram pela porta sempre aberta. Quase sempre tem o intuito não de desrespeito, mas sim de “abrir o coração”. Certa feita, um destes cidadãos entrou no plantão, dizendo que já vinha andando de mutos bares e insistia em ser ouvido. Não reportava um crime, mas insistia em querer revelar ao Delegado e sua equipe a triste história de amor e traição em que se via envolvido, e que o motivaram a beber, contando inclusive detalhes do “flagrante de adultério” que havia dado, inclusive com o balanço de um veículo parado. Queria apenas desabafar, enfim.    

 

E o mais triste?

Tristes muitos o são, principalmente os que envolvem mortes precoces. O mais difícil sempre é ter que transmitir esse tipo de notícia. Mais ainda quando se tratam de casos de suicídios, em que dor da família vem aumentada pela sensação de que poderiam ter evitado o evento fatídico, o que quase sempre não corresponde a realidade, mas a sensação que fica ao ente é essa.

 

Quando um acadêmico ou bacharel toma a decisão de ingressar numa carreira pública, qual o primeiro passo a ser dado?

Analisar as características dessa carreira, suas peculiaridades e nuances. Passo importante também é o de analisar os últimos editais daquele concurso e iniciar desde já os estudos, independentemente de haver certame em aberto. Pois deixar para se preparar somente quando da abertura do concurso pode implicar em tempo escasso ou insuficiente. Se for possível, escolher um curso preparatório ao menos para o início dos estudos e formação de uma rotina de preparo, além de uma seleção de material conforme a carreira escolhida.

 

O que deve esperar o concursando na hora de optar pela carreira na Polícia Judiciária?

Deve esperar por uma carreira de cunho jurídico, com o acréscimo da atividade policial, ou seja, vai exercer funções eminentemente jurídicas quando da condução de inquéritos e investigações, no interior da Delegacia. Contudo, haverá momentos de atividade de campo de polícia judiciária, ou seja, estará “nas ruas” exercendo atividades investigativas e decorrentes de pleitos judiciais, como nos casos de realização de buscas e apreensões e mandados de prisões, além de operações de policiamento preventivo especializado, que poderão resultar também em prisões em flagrante, em locais e horários os mais variados. Portanto, a monotonia será difícil de se encontrar no exercício diuturno da atividade do Delegado de Polícia, dirigente da Polícia Judiciária.

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EMILIO PERNAMBUCO.

Emilio Pernambuco.

Delegado de Polícia do Estado de São Paulo.

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