Página Inicial   >   Entrevistas

ENTREVISTA Minha trajetória nos consursos - Juiz Estadual

 

Em que momento decidiu se enveredar pelos concursos públicos? 

Por incrível que pareça, entrei na faculdade de direito já pensando em concurso público. Eu tinha uma imagem muito forte dos exemplos de vida do meu pai (ex-Juiz) e do meu avô materno (ex-Procurador de Justiça). Então, acabei seguindo esse caminho de forma quase automática, o que, definitivamente, não é bom, porque, para escolher uma profissão, é preciso refletir bastante. Senão, vão aparecer as “crises existenciais”. E eu tive essa crise assim que acabei a faculdade. Empacotei minhas roupas e resolvi fazer seis meses de “mochilão”, até decidir o que queria. Daí a minha dica: esteja absolutamente em paz consigo, seja para aguentar a preparação para o concurso, seja para sentir-se realizado exercendo a profissão escolhida. 

 

Quando iniciou seu preparo? Qual metodologia usou?

Meu preparo mais focado começou no cursinho, embora eu precise destacar que levei a faculdade de forma razoavelmente séria. Obviamente que eu não vivia só para estudar, mas também não tratei a faculdade como um ponto de encontro para bate-papo. Uma boa base conceitual facilitou muito meu caminho. Aí no cursinho eu fiz algo mais focado. Dividi meu tempo para que pudesse assistir às aulas, ler as leis, os informativos, e doutrina, e fazer um pouco de resolução de questões. Nada que ultrapassasse suas 7 ou 8 horas diárias. Para a fase escrita, treinei redações. E para a fase oral, treinei entrevistas e perguntas orais.

 

Quanto tempo demorou para ser aprovado no primeiro concurso?

Depois de dois anos fazendo cursinho, fui aprovado na primeira fase do Ministério Público. Depois de três anos de cursinho, fui aprovado na Magistratura de São Paulo.

 

Como traçou seus focos em relação às carreiras?

A magistratura sempre foi minha primeira opção. Sentia que tinha uma afinidade maior com as funções de um juiz do que com as de um promotor, ou de um defensor. Então, durante o cursinho, procurei ter maior contato com as matérias cobradas no concurso para a magistratura, assim como com o estilo da prova. É muito importante adquirir essa familiaridade porque, quem está começando a se preparar, pode pensar que “concurso público é tudo igual”. Não é. Cada instituição tem suas particularidades, ainda que cobrem as mesmas matérias jurídicas.

 

O senhor é filho do jurista Luiz Flávio Gomes, este fato te gerou uma grande pressão na aprovação no concurso?  

É uma sensação muito estranha, difícil de descrever. Eu sentia uma pressão enorme, pelo menos no começo da preparação, mas era uma pressão minha. Ninguém da minha família disse: “olha, ou passa, ou você vai manchar o nome dos seus familiares”. Muito pelo contrário, eles me ajudaram em tudo, até mesmo em não ficar perguntando a toda hora como iam os estudos (aquela pressão indireta). Não precisava. Eles viam que eu me esforçava. Meu maior problema era eu mesmo. Então, aos poucos, fui percebendo que era necessário levar a preparação “na boa”, sem ficar me comparando a ninguém, até porque, pensava comigo, ninguém está aqui na Terra para ser cópia de ninguém.

 

Como profissional existe uma expectativa que seus entendimentos sejam convergentes com o do seu pai? 

Para ser bem sincero, não tenho essa sensação de que as pessoas com quem trabalho esperam uma decisão convergente com entendimentos do meu pai. Claro que de vez em quando aparecem petições que usam trechos escritos por ele, mas eu noto que isso normalmente acontece com profissionais que não conhecem a minha ascendência. Seja como for, lido super bem com isso. Tenho muito orgulho ter o pai citado. Nem por isso, contudo, deixo de decidir a partir da minha própria reflexão. Se tem algo que meu pai ensinou é ser independente, principalmente para pensar.

 

Depois de aprovado, como foi sua rotina de Juiz de Direito recém empossado?

Assim que tomei posse, passei o primeiro mês assistindo a aulas na EPM (Escola Paulista da Magistratura). Junto com as aulas, tínhamos que comparecer a vários fóruns da capital para acompanhar as audiências com os juízes mais antigos. Foi uma época muito agradável e divertida, mas que já serviu como prenúncio da grande quantidade de trabalho que teríamos pela frente. Terminado esse período, fomos designados para as circunscrições escolhidas. São Carlos foi a minha escolha, e foi lá onde aprendi muito e fiz muitos amigos. Como Juiz Substituto, o que eu posso dizer é que não se morre de tédio. É uma correria. Em um dia você está numa cidade, no outro está em outra, num dia você decide sobre briga de vizinho, no outro sobre a improbidade do prefeito. Foram raros os finais de semana que passei sem trabalhar.

 

Qual foi o momento mais engraçado ou curioso da sua carreira até agora?

Não tem como eu esquecer a minha primeira audiência. Estávamos ainda na EPM e fomos designados para ver uma audiência no JEC (Juizados Especiais Cíveis). Chegando lá, ficamos sabendo que o juiz teve um problema de saúde, e tivemos que assumir as audiências. A mim, coube instruir uma causa envolvendo indenização moral por negativação de nome. Ainda no susto, e sem o traquejo do cargo, passei a ouvir a preposta da empresa de telefonia. O que era para acabar com uma simples pergunta (“tem alguma proposta de acordo, Dra?), eu transformei em um interrogatório digno de série. Perguntei até onde a preposta tinha estado nas últimas 24 horas, como se quisesse desvendar o crime do século. Hoje dou risada da situação, e espero que a preposta não tenha se sentido ofendida. 

 

E o mais triste?

Eu poderia citar casos de homicídio, estupro, latrocínio, crianças abandonadas, mas prefiro fazer uma consideração mais ampla. É muito triste saber que vivemos em uma sociedade tão violenta, tão brutal, que precisa recorrer com frequência a agressões, ameaças, ofensas. Acho que o mais triste é isso. É lidar com um processo criminal hoje, por exemplo, é saber que haverá tantos outros aparecendo para nós, juízes, amanhã. É saber que falta mais entendimento, mais diálogo entre as pessoas. O Brasil precisa avançar muito em termos civilizatórios e valores humanistas.

 

Quando um acadêmico ou bacharel toma a decisão de ingressar numa carreira pública, qual o primeiro passo a ser dado?

Acredito que a própria decisão de ingressar em uma carreira pública é fundamental. Não basta ser uma decisão despretensiosa, como se fosse escolher vestir a roupa preta ou vermelha. Lembro que refleti muito e até cheguei a escrever em um papel: “quero ser e serei juiz”, e o prendi na parede. Olhava para o papel toda vez que me sentia cansado ou desanimado. É preciso ter em mente que o concurso, seja ele qual for, exige um preparo muito forte, constante e metódico. Quem decide de forma impulsiva, é quase certo que desiste depois de algum tempo. Uma vez muito tomada a decisão, de forma séria, as informações sobre a carreira pública vão naturalmente aparecer. Aí é preciso acumular aquele monte de informação e traçar os primeiros métodos de estudo. Com o tempo, esses métodos precisam ser reavaliados para saber se são os mais eficazes para aquela etapa de preparação. A lição que eu aprendi é ter paciência e tentar manter o equilíbrio (saúde física e mental). É clichê, mas é verdade: concurso não é corrida de cem metros; é maratona.

 

O que deve esperar o concursando na hora de optar pela carreira na Magistratura?

 No que diz respeito à prova, o concursando vai encontrar muita concorrência. A primeira fase é marcada por requerer um nível de acerto muito alto. É um erro, contudo, limitar a preparação para a prova objetiva. Para passar no concurso, e até mesmo para ser um bom profissional, é preciso ter um conhecimento jurídico sólido, que acredito vir, basicamente, de muita leitura. No que tange à carreira, eu destacaria a grande quantidade de trabalho, principalmente nos primeiros anos, e em algumas comarcas mais complicadas.  Afora o trabalho, a Magistratura (no meu caso, a Bandeirante) é uma fonte de ensinamentos, de reflexões, de dilemas e, com isso, de crescimento como pessoa. Se você tem esse desejo de transformar em palavras e decidir de acordo com o sentimento mais puro de justiça, será um prazer tê-lo como colega.

 

Comentários

BEM-VINDO À CARTA FORENSE | LOG IN
E-MAIL:
SENHA: OK esqueceu?

LUÍS FILIPE VIZOTTO GOMES

 Luís Filipe Vizotto Gomes

Juiz de Direito do TJ/SP.

EDIÇÃO DO MÊS

Crimes Sexuais - aspectos atuais

NEWSLETTER

Receba nossas novidades

© 2001-2018 - Jornal Carta Forense, São Paulo

tel: (11) 3045-8488 e-mail: contato@cartaforense.com.br